Tuesday, 8 November 2011

prêmio pinóquio do desenvolvimento sustentável

resorce:



Welcome to the
"Prix Pinocchio du développement durable !"




The Sustainable development concept, as a “pattern of resource use, that aims to meet human needs while preserving the environment so that these needs can be met not only in the present, but also for generations to come” is now part of our everyday life thanks to the new trend for environmental protection, human rights protection and the need for a real international solidarity.

Yet, many players like some big and powerful French companies, have unfortunately hijacked that concept only for a cosmetic purpose. Some vibrant speech on Sustainable development is thus often used to hide the real impacts of these companies activities while improving their public image for their clients or shareholders.

In 2011, on the international level, no one ever contest the environmental and social urgency. Nevertheless, the big companies as important economical players have hardly progressed in terms of corporate social and environmental responsibility. It’s time to stop saying one thing and mean another. Who lies? Who is only green on the outside?

Help us restarting the debate so the corporate really assume their responsibilities!

Vote now!

FLIMT - 2ª edição

fonte - sec cultura mt





II Feira do Livro Indígena do Mato Grosso

O encontro com a diversidade cultural do país chega a sua segunda edição em 2011. É a Feira do Livro indígena de Mato Grosso, evento que reunirá em Cuiabá – MT, escritores, artistas e lideranças indígenas, livreiros, educadores, estudantes e a comunidade em geral. Uma realização do Governo do Estado de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Cultura, a FLIMT, acontece no mês de novembro, fomentando o prazer pela leitura. Durante quatro dias, a cultura dos povos indígenas ganha a cena, nas suas mais diversas formas de manifestações, promovendo o prazer pela leitura e uma viagem ao Brasil indígena.


Palestras;
Exposições
Contação de Histórias;
Lançamentos;
Atividades Culturais;
Oficinas;
Editoras;

Participe!

23 a 26 de novembro de 2011
Palácio da Instrução - Cuiabá – MT

Realização:
Secretaria de Cultura do MT


Apoio:
Insituto UKA-Casa dos Saberes AncestraisNEARIN - Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas do INBRAPI

Informações:
flimt@cultura.mt.gov.br

Friday, 4 November 2011

Richard Sennett

fonte - carta maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18164



Richard Sennett: Por uma esquerda confiável



Uma leitura sobre o sentido moral em que ser de esquerda pode determinar o modo como se vive em sociedade. E a via para recasar o aspecto social com as concepções programáticas de partidos políticos cujas bases são da esquerda. Nos EUA, na Europa e em todo o mundo, sempre. Richard Sennett, escritor, sociólogo, pesquisador e professor da Universidade de Nova York retoma a defesa do cultivo da solidariedade como conceito político da esquerda, segundo o qual agir em conjunto seria e deve ser um fim em si mesmo. Para uma esquerda confiável, capaz de resistir e enfrentar a “Besta”.

Richard Sennett (*)

Quando o sistema financeiro colapsou em 2008, eu pensei que tinha chegado a nossa hora. As ruas ficariam cheias de gente protestando contra a Besta Capitalista; o governo iria se mover para a esquerda, em resposta; as pessoas iriam repensar como queriam viver. Ainda assim, embora tenha havido tantos protestos no Wisconsin e, no exterior, na Espanha e na Grécia, muitos eleitores ainda vão se mover para a direita; o antigo regime financeiro foi restaurado. De certa forma isso não é surpreendente. Quando as coisas dão errado, as pessoas tanto querem mudar como aderir, por comodidade, ao que é familiar. Mas a esquerda não tem conseguido nem nos EUA nem em toda a Europa tornar-se uma voz confiável de reforma.

À medida que controla tanto o dinheiro como a mídia, a Besta pode, é claro, proteger-se. Nessa crise, os autores da Grande Recessão conseguiram se safar, ao culparem algumas pessoas em particular, ou políticos, em vez de admitir falhas estruturais no sistema. As classes dominantes não vencem invariavelmente: pelo Norte da África e no Oriente Médio, os oprimidos estão se levantando contra seus tiranos bizarros. Nem, mais perto de casa, seria correto culpar a letargia das massas; as pessoas são cheias de energia política, mesmo que contra imigrantes e estrangeiros.

O fato indigesto é que a esquerda incendiária cada vez importa menos no modo como as pessoas pensam a respeito de como viver junto. E se isso é há muito verdade nos Estados Unidos, onde a esquerda só ocupou uma pequena parte do discurso público, a decadência da esquerda agora marca o velho lar da Europa Ocidental, como na Suécia ou na Grã Bretanha. A palavra “progressista” parece não ser outra coisa que o despertar da “social democracia”. Embora Think tanks abundem nos EUA e na Europa e produzam propostas razoáveis e válidas de justiça social, as bizarrices da política parecem induzir um olhar fixo de indiferença dentre o grande público.

Como um sujeito de esquerda de velha geração, eu me preocupo com tudo isso. Seria lamentável que o futuro consistisse apenas em diferentes sombras de capitalismo. Dentre as anotações médicas e fúnebres, eu me perguntaria como a esquerda no poder se apequenou. Este é um problema, cheguei a pensar, mais social que ideológico, no fundo.

Você se torna confiável quando os outros o levam a sério mesmo que não concordem com você. Para ser levado a sério, você precisa saber quando se manter em silêncio e como escutar bem; assim você estende o respeito e o reconhecimento dos outros. A filósofa Anne Phillips insiste corretamente na importância da “presença” na política, com o que ela quer dizer alguém, um indivíduo ou grupo sentir que pode conduzir uma discussão em termos igualitários. Presença é algo que alguém de fora tem de obter por seu comportamento. Somar pontos não vai, sozinho, admiti-lo na vida de outras pessoas; vencer um argumento sobre eles não o inclui no seu pensamento a respeito de como viver. Quer dizer, a credibilidade habita mais o reino da receptividade que o da assertividade.

Se isso é correto, um certo tipo de política se segue. Uma política que iria se concentrar mais na sociedade civil que na política eleitoral – particularmente na política eleitoral em nível nacional. Uma comunidade organizada ou o ativismo das redes precisa ser honrado por si mesmo, não como abelhas trabalhadoras na colmeia da política nacional; é provável que essa comunidade organizada ou o ativismo das redes não tenham desenvolvido suas habilidades de bons ouvintes e de discussão que gera respeito. Nos EUA, na Dinamarca, na Finlândia e na Grã Bretanha, a direita tem colonizado redes políticas efetivas, construído comunidades viáveis e sustentáveis, mesmo que seus propósitos em nível nacional fracassem.

A direita conseguiu uma façanha genial: embora grandes montanhas de dinheiro estejam por trás de muitos de seus esforços organizativos, no fundamental as organizações de direita tem se comportado de maneira confiável quando fala em nome das pessoas comuns. Eu espero que a esquerda tome de volta esse território comunitário; mas fazer isso requer uma mudança de mentalidade de nossa parte.

A corrida política gira em torno da proposição segundo a qual se você tem um problema, nós temos a solução. Propor uma solução para os problemas de outras pessoas – particularmente se esses problemas se tornam questões complicadas, como o desemprego de longo prazo – pode não ganhar por si só presença e respeito. Nossa solução pode parecer correta em abstrato, mas é só o que ela é – longe dos traumas familiares e da desmoralização, por exemplo, que aflige o desempregado de longo prazo.

Uma linguagem confiável de mútuo engajamento deve, eu penso, transcender o discurso da resolução de problemas; tem de responder às experiências de ambiguidade, dificuldade e derrota.

* * *

Eu pus tudo isso na cabeça ao ler um estudo recente do YouGov, uma instituição de pesquisa britânica. Esse estudo mostra as atitudes do público em relação aos políticos progressistas e dos progressistas nos Estados Unidos, na Grã Bretanha, na Alemanha e na Suécia. A pesquisa fornece um pano de fundo para um recente encontro em Oslo de dirigentes da esquerda europeia, políticos todos ameaçados pelas tendências de direita em seus países. Para Ed Miliband, o líder do Partido Trabalhista da Inglaterra, Jens Stoltenberg, primeiro-ministro da Noruega ou John Podesta, presidente executivo do Centro para o Progresso Americano, o estudo não pode ter sido uma leitura mais reconfortante.

A pesquisa da YouGov (disponível em policy-network.net) traça um quadro pessimista da confiança pública nos governos para resolver os problemas sociais. Essa confiança é fraca em todos os quatro países pesquisados e as pessoas duvidam especialmente de que a arrecadação de dinheiro possa fazer muita coisa. Os progressistas estão, é claro, mais simpáticos à taxação, em princípio, mas estão quase tão desconfiados de que governos maiores, por serem maiores, porão muito mais em prática. Esse achado é notícia quente, mas o estudo chegou a mim com um fato surpreendente: uma grande parcela de eleitores de centro disseram que estão dispostos a pagarem taxas mais altas se os políticos forem confiáveis – até 17% dos republicanos dos EUA topariam isso. A questão da credibilidade tem mais relação com o comportamento dos governantes do que com o conteúdo político.

Em todos os quatro países, o público em geral tem “em muito baixa conta a capacidade do governo de resistir aos interesses de alguns grupos”. Os números aqui são assustadores: só 15% nos Estados Unidos acham que os políticos resistirão a uma poderosa influência externa, enquanto na Inglaterra são 16% , 12% na Alemanha e 27% no país que um dia foi do padrão-ouro, a Suécia. Nem é complacente o público a respeito dos interesses externos; em todos esses países há massivas preocupações com as corporações “que só querem saber de lucros” (85% na Inglaterra acha que sim, enquanto 83% na Alemanha, 69% nos EUA e 60% na Suécia). O comportamento de Obama nos assuntos internos poderia servir como um emblema dessa combinação – sua retórica progressista casada com uma disposição de parecer dócil aos interesses poderosos.

A falta de confiança na esfera pública tem sido aguçada pela desigualdade arbitrária na vida cotidiana. Os pesquisadores da YouGov verificaram que uma maioria concordava que “quem você conhece é geralmente mais importante para conquistar algo na vida do que o trabalho duro e jogar segundo as regras?” (até 46% dos estadunidenses subscreve esta via, a despeito do histórico otimismo do país a respeito das iniciativas de ir em frente). As pessoas aplicam o medo da desigualdade arbitrária a si mesmos e a suas crianças quando discutem o valor de uma educação universitária; a maioria pensa que isso tem pouco valor no longo prazo (salvo os suecos, que tem um mercado de trabalho robusto). A maior parte desse medo vem da contração da renda da classe média em todo o Ocidente – o famoso “encolhimento” da classe média. Uma consequência desse encolhimento é o desejo de evitar riscos, cujas exigências por reformas estruturais parecem só agravar o quadro. Dentre os correspondentes de esquerda da YouGov, só 4% dos britânicos, 10% dos estadunidenses, 7% dos suecos e 11% dos alemães dizem que arriscariam a segurança de seus empregos na busca por “uma maior participação nas tomadas de decisão do meu empregador”.

Um estado corrupto, um sistema econômico indiferente aos bens sociais, uma sociedade na qual oportunidades iguais e realizações educacionais contam pouco, uma preocupação dominante com a perda de empregos: quatro crenças que combinam para produzirem sentimentos de terror – a mais paralisante e isolante das emoções. Em Oslo, no entanto, os dirigentes políticos e acadêmicos têm outra coisa em mente; eles falam da economia social de mercado, da socialdemocracia para além do estado nação, de empregos verdes e de crescimento econômico. Nada na agenda a respeito de organização comunitária: nem houve organizações de base convidadas. Na verdade, ninguém “desimportante” falou no evento.

Não há nada de novo em argumentar que deveríamos dar mais atenção à construção de uma política comunitária orientada na sociedade civil. No alvorecer do século vinte, a esquerda tinha se dividido em duas: uma esquerda política focada em eleições e lidando com governos e uma esquerda social envolvida em apoio à construção de moradias, cooperativas bancárias e outras associações voluntárias. Os dois lados se confrontaram em 1900, na Exposição Universal de Paris, numa série de debates dedicados à “Questão Social”; na ocasião, a esquerda política apresentou vários manifestos por reformas nos governos e pela organização de sindicatos, enquanto a esquerda social mostrou fotografias de ruas e edifícios em que trabalhadores organizados trabalhavam. A despeito do acordo de ambos os lados quanto aos males do capitalismo, eles discordavam quanto a como responder ao sistema: a esquerda política, representada pelas centrais sindicais alemãs, acusava seus oponentes de falta de disciplina e de força necessárias para a adesão aos movimentos de massa; a esquerda social defendia os trabalhadores dos assentamentos e moradias populares estadunidenses, argumentavam que só a cooperação cara a cara, não importa o quão informal ou bagunçada for, poderia resgatar imigrantes e outras pessoas do isolamento nas cidades. Um lado queria aderir à política; o outro via a política como algo que começa pelo engajamento, empatia e construção de confiança.

Esse conflito entre essas duas tendências durou, e o líder comunitário de Chicago, Saul Alinsky foi, penso, o seu mais agudo analista. Nos anos 60 e 70, ele contrastou a situação desconfortável dos dirigentes políticos de esquerda, que insistiam em definir as tomadas de decisão e em ter objetivos definidos, com o trabalho local que ele estava fazendo, cuja característica, ao agregar vizinhos para cooperarem junto, era de ser mais fluído e informal. A diferença repousa no objetivo mesmo do esforço radical. Em meio ao programa de reformas Great Society [ do governo Lyndon Johnson, para reduzir a pobreza e a injustiça racial nos EUA], Alinsky enfatizou que reunir as pessoas para participarem com outras de ações comunitárias era um projeto inerentemente radical por si só. Ele não praticou políticas de identidade do tipo das que dependem da solidariedade de classe, étnica ou racial; ele quis que grupos diversificados se conectassem e interagissem – uma política bagunçada e informal que ele assimilou em Chicago, a partir dos assentamentos liderados por Jane Addams, e do movimento Trabalhador Católico, fundado por Dorothy Day e Peter Maurin; dos “associanistas” da Inglaterra e de A.D. Gordon, em Israel.

Hoje, a direita colonizou e corrompeu o trabalho na sociedade civil de duas maneiras. Como no programa “sociedade grande” da Inglaterra, as iniciativas do terceiro setor e do setor informal foram usadas como peneira para tapar o sol do corte de gastos do governo; voluntários não pagos foram usados para tomarem o lugar de profissionais pagos em escolas, na política e no cuidado de idosos. Voluntários vão e vêm, sem que se acumule expertise. Pior, organizações civis são forçadas a competirem por financiamentos de doadores privados ou de governos. A economia de mercado invade e diminui a cooperação entre os grupos.

Os alemães e os suecos têm resgatado o terceiro setor tanto desses males, ao darem segurança e importância às demandas da sociedade, com financiamento público, enquanto asseguram que o “não lucrativo” significa exatamente isso. Instituições de caridade cristãs, judaicas e islâmicas, por exemplo, são encorajadas a trabalharem juntas. No interior das organizações os voluntários têm um verdadeiro treinamento e são exigidos deles compromissos de longo prazo. Assim o terceiro setor pode funcionar, mas nos EUA e na Inglaterra esse tipo de coisa parece uma zona turva para a ação da esquerda, já que as sombras do neoliberalismo são muito profundas.

* * *
O ativismo não lucrativo não é uma panaceia para os males da sociedade, como a socióloga Nina Eliasoph deixa claro no seu livro fino Making Voluntários[Construindo Voluntários]. Ela traça o quadro dos “usos e abusos da esperança” em projetos locais de ativismo – que desmoronam, pensa, ao alimentarem falsas esperanças, desmoralizando-se frequentemente dentre os voluntários mais antenados. Ela recomenda às organizações que estabeleçam objetivos alcançáveis e modestos, e que tornem todos os participantes de alguma maneira experts no que estão fazendo. Isso é apenas o bom senso comum, mas ela também entende , assim como Addams e Alinsky, antes dela, que“administrar conflitos não é o mesmo que fazê-los desaparecer”. As organizações de base que são viáveis precisam manter as pessoas juntas mesmo que as conquistas levem tempo e estejam além de seu alcance; isso só pode ser feito fazendo da experiência da cooperação um fim em si mesmo.

Grupos como o dos Médicos Sem Fronteiras estão juntos há muito tempo, fazendo um trabalho muito frustrante, em larga medida porque as equipes que trabalham nas missões de campo se dedicam intensamente à manutenção do espírito de corpo. Eles fazem isso, do meu ponto de vista, fazendo da receptividade aos outros algo mais importante que a assertividade.

Algumas pessoas na esquerda desistiram do movimento sindical, o que é compreensível, mas eu penso que se trata de um grande erro. Embora muitos sindicatos tenham se tornado burocracias esclerosadas, obsessivas com privilégios de senhorio, nem todas são assim. O “novo movimento sindical” (que na verdade começou nos anos de 1880) soube ampliar a agenda e o apoio mútuos fornecidos pelos sindicatos, combinando o engajamento direto dos trabalhadores com ação de massa. O sindicato internacional dos trabalhadores na área de serviços, por exemplo, foi bem sucedido ao trazer as trabalhadoras e os imigrantes, mas não apenas ao engajamento numa luta sem fim do trabalho contra o capital, mas também fornecendo serviços sociais aos seus membros, encorajando a socialização informal e até promovendo as artes.

Eu venho pensando é numa mudança de temperamento da esquerda. Ao longo do século vinte a esquerda política teve mais influência que a esquerda social, com o lado político parecendo mais poderoso em suas soluções e políticas. Menosprezou-se a política social, enquanto terapia e engajamento social como um fim em si mesmo. Esse escárnio se provou autodestrutivo; políticos de esquerda mostraram-se mais adeptos de arguirem e se exibirem do que de se conectarem com outras pessoas.

Talvez a solidariedade seja o nó do problema. O desejo por solidariedade busca transcender as diferenças; a bagunça que é a vida cotidiana parece um impedimento à ação política. Enquanto isso, a esquerda social, dos velhos “novos sindicalistas” a organizadores comunitários como Alinsky, tem pretendido se engajar com a ambiguidade, diferença e incompletude. Eu não acredito que esse tipo de engajamento possa reduzir o caráter espontâneo da boa vontade. Engajar-se bem com os outros requer habilidades, seja a de escutar bem ou de cooperar com aqueles de quem se diverge.

Uma mudança de temperamento não significa a rejeição da política – como isso seria possível? Em princípio, renovar a sociedade civil de esquerda deveria restaurar a confiança no ativismo. A YouGov alerta, no entanto, que as pessoas estão céticas a como os políticos se comportam, quaisquer que sejam os seus programas. Retomar a confiança significa, paradoxalmente, reconhecer os limites da ação política e enfatizar a força inerente de agir na sociedade civil. A direita colonizou este território; a esquerda tem de toma-lo de volta. Na prática isso implica dispender mais energia e dinheiro em questões locais do que na política eleitoral nacional.

O Partido Democrata tem em larga medida considerados os votos da esquerda como garantidos; um localismo mais robusto poderia implicar uma grande pressão sobre os nossos dirigentes em nível nacional – assim como ocorreu com a direita. No que nos concerne, eu penso que esta é uma questão de pôr de volta o social no socialismo.

(*) Richard Sennett é professor na New York University e na The London School of Economics. Autor, entre outros livros, de A Corrosão do Caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo (publicado no Brasil pelaRecord). Página pessoal: www.richardsennett.com.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: http://agenceglobal.com/Article.asp?Id=2600

Rio (marromeno) 20

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Meio Ambiente| 29/08/2011 | Copyleft 


A crise e a aposta de Ignacy Sachs para a Rio-2012


A urgência ambiental tem um encontro marcado no Brasil em 2012: o país sediará a Cúpula da Terra, o mais importante fórum da ONU sobre as agendas, compromissos e diretrizes em torno de um novo padrão de relação entre desenvolvimento e meio ambiente. O que a sustentabilidade do século XXI pode esperar de Estados inabilitados para sustentar a própria contabilidade? Em entrevista exclusiva à Carta Maior, o economista e sociólogo Ignacy Sachs apresenta as linhas gerais de uma proposta que pode ser o elo entre forças e agendas ainda desencontradas, mas de cuja afinidade depende em grande parte o êxito ou o fracasso da intervenção brasileira na Rio-2012 e, por que não, da própria cúpula.

Há cinco anos, o mundo quase não encontra tempo para respirar. Manchetes em cascata regurgitam evidências de um magma em erupção. Desde a eclosão da crise imobiliária nos EUA, a partir de 2007, os fatos se precipitam a uma velocidade que não deixa dúvida: a história apertou o passo. Na ventania desordenada surgem os contornos de uma crise sistêmica . Restrita aos seus próprios termos, a engrenagem das finanças desreguladas não dispõe de uma alternativa para o próprio colapso. Uma crise se desdobra em outra. Iniciativas convencionais e cúpulas decisivas adquirem a validade de um pote de iogurte.

A desigualdade construída em 30 anos de supremacia dos mercados sobre o escrutínio da sociedade cobra sua fatura. Populações asfixiadas acodem às ruas. Governos se escudam em mais arrocho. Conquistar a confiança dos capitais semeia a desconfiança na política e o descrédito na democracia. 

Nessa rota de colisão, a urgência ambiental tem um encontro marcado no Brasil em 2012: o país sediará a Cúpula da Terra, o mais importante fórum da ONU sobre as agendas, compromissos e diretrizes para reconciliar o desenvolvimento e o meio ambiente.

O que a sustentabilidade do século XXI pode esperar de Estados inabilitados para sustentar a própria contabilidade? Ou de governantes incapazes de se equilibrar sobre os próprios compromissos com os eleitores?

O professor Ignacy Sachs, economista e sociólogo, nascido na Polônia, naturalizado francês, brasileiro de coração não se impressiona com a metralhadora giratória dos impasses. ‘Digo que vivemos hoje uma dinâmica distinta daquela da Eco-Rio 92. E por incrível que pareça, talvez mais favorável ’, sentencia num claro desafio ao senso comum do desespero. 

Governo, movimentos, partidos e entidades civis dispõem de pouco tempo, até outubro, para entregar a contribuição brasileira à conferência da ONU. 

É aconselhável ouvir o que Sachs tem a dizer. Não é a voz de um personalismo. Mas o testemunho de um trunfo histórico: Sachs encarna o elo entre forças e agendas ainda desencontradas, mas de cuja afinidade depende em grande parte o êxito ou o fracasso da intervenção brasileira na Rio-2012 e, por que não, da própria cúpula. 

O diálogo nem sempre fácil entre desenvolvimentistas, ambientalistas e a esquerda encontra na história desse workaholic de 84 anos, que vive entre o Brasil e a França, um idioma de pontos de convergência. Ele mistura desassombro e pragmatismo ancorados na experiência que adensa valores, em vez de descartá-los.

Sachs aportou no Brasil pela primeira vez em janeiro de 1941. Era o último navio de rota que saía de Portugal antes da interdição bélica dos oceanos ocupados por submarinos, minas e mísseis. Menino ainda, fugitivo de uma Polônia invadida pelo alemães, viu com encantamento o amanhecer na baia da Guanabara. “Contei os edifícios do navio, eram 42; em Varsóvia tínhamos apenas um. O Rio era o oposto daquele país atrasado que nos diziam, onde os macacos andavam pela rua. Era muito mais avançado que Varsóvia’.

O desassombro diante da vida moldou a sua inserção na história e as suas intervenções no mundo. 

Neto de um avô banqueiro, alfabetizado numa Polônia nacionalista que se orgulhava de sua imbatível cavalaria, tão inexpugnável quanto a linha Marginaux, viu a família evadir-se de Varsóvia em 5 de setembro de 1939 levando apenas a bagagem de mão. “Deixamos para trás até o cachorro, Trol’. Seria um retiro de alguns semanas no campo, dizia o avô confiante –até que a valorosa cavalaria polonesa vencesse os tanques alemães. “O intervalo foi maior. Meu avô era um homem das finanças, portanto, bem informado, mas a história quando se move o faz com uma velocidade espantosa. Para o bem e para o mal. Sua capacidade de surpreender é impressionante ”, pondera Sachs.

Para atualizar os mais jovens, os muito céticos e, ao mesmo tempo, os cegos de otimismo ele explica: “Dias antes, talvez uma semana antes de Hitler invadir a Polônia, Molotov e Ribbentrop , respectivamente chanceleres russo e alemão, haviam assinado o pacto de não agressão. Deu-se o oposto: Hitler a invadiria a Polônia e dezesseis dias depois a Rússia ocuparia o país. Saímos de casa para um breve retorno, com base nos fatos e informações de 1º de setembro. A guerra mundial estendeu-se por anos; matou 40 milhões de pessoas’.

Ignacy Sachs voltaria a Polônia em 1954 para comprovar que a história de fato não se submete a roteiros lineares. Em 1960, o neto de banqueiros trabalhava no planejamento socialista do país liderado pelo economista Michael Kalecki, hoje reconhecido como um precursor de Keynes. De novo, a história fez das suas. Kalecki escrevia em polonês, não em inglês. Quem ficou famoso com as mesmas idéias foi Keynes.

Sachs trabalhou com Kalecki de 1960 a 1968. Dois anos depois ele estava em Osaka, no Japão, ao lado do economista Shigeto Tsuru, estudioso japones do marxismo. Testemunhou e discutiu ali um dos mais emblemáticos acidentes ecológicos do século XX: o desastre de Minamata. A contaminação por mercúrio industrial na baía com aquele nome matou 900 pessoas. Afetaria mais de dois milhões de japoneses que se alimentaram de peixes do lugar.

Desde então Sachs participaria ativamente dos eventos divisores da agenda ambiental, como a reunião de Estocolmo, em 1972 e, naturalmente, da Rio-92.

O que o torna uma ponte importante para certos impasses da agenda ambiental, é que - ao contrário de muitos - ele não renunciou a uma formação ecumênica.

Desenvolvimentista, como Celso Furtado, aliou à agenda do crescimento os valores da justiça social. Adepto do planejamento, renovou essa ferramenta despindo-a do autoritarismo tecnocrático para vesti-la com o diálogo entre as vozes da cidadania, mediadas pela harmonização do poder público. Ao conjunto adicionou o que denomina ‘imperativo do equilíbrio ambiental’. 

De certa forma sua biografia realiza a fusão de que se ressentem tanto os desenvolvimentistas, a esquerda e os ambientalistas na busca de uma convergência capaz de renovar a plataforma da luta política em nosso tempo. 

É dessa arquitetura histórica que ele critica o ressurgimento malthusiano que contamina certo ambientalismo, adepto do decrescimento para dizer: ‘se acham que a humanidade passou do ponto, tirem as consequências disso: como será feita a eliminação do excesso?’.

A seguir, os principais trechos da conversa de Carta Maior com Ignacy Sachs:

Carta Maior - Em 1992, a Cúpula da Terra, no Rio, foi atropelada pela emergência do ciclo neoliberal. A Cúpula de 2012 acontece em meio a maior crise do capitalismo desde 1929. De novo vamos na contramão?

Ignacy Sachs - De fato, a Rio-92 foi uma grande conferência com uma 
agenda bastante razoável, mas que coincidiu com o fim da União Soviética e a emergência da onda neoliberal que varreu o mundo. O resultado é que de lá para cá nós não avançamos, nós recuamos.

CM - Que marcos o senhor destacaria nesse retrocesso?

IS - Bom, tivemos Bush! A guerra do Iraque... e tudo o que se originou dessa correlação de forças em termos de consequências ambientais. A Rio-92 aconteceu na contramão da história.

CM Agora, a cúpula de 2012 será atropelada pela crise?

IS - Embora o tempo para prepará-la seja muito, muito pequeno e isso condicione o que podemos pensar em termos de agenda brasileira, talvez ela ocorra num porvir histórico mais favorável.

CM - Mas a crise atual acua governos e muitos se aferram à radicalização dos mesmos princípios que a originaram...

IS - A crise é a evidência contundente de que a receita neoliberal fracassou. E isso com certeza amplia o campo para se propor uma outra visão do futuro.

CM - Qual visão?

IS - Comecemos pelo que se pode querer da conferência. Em primeiro lugar, a Rio-2012 deve ser um ponto de ordenação de agendas. Os países membros das Nações Unidas devem sair dela comprometidos a trazer, num prazo de dois anos, seus planos de desenvolvimento sustentável e socialmente inclusivos. Ao mesmo tempo, é imprescindível reconstruir ferramentas institucionais. É preciso reposicionar a velha casa das Nações Unidas para as gigantescas tarefas que temos diante de nós.

CM - O que isso significa em termos práticos?

IS - Significa que sem dinheiro não iremos a lugar algum, muito menos a um mundo sustentável. É necessário resgatar a agenda de construção de um fundo para o desenvolvimento inclusivo e sustentável dos países mais pobres. Não cumprimos essa etapa no passado, ela sempre volta; terá que ser enfrentada agora. Nos anos 60/70 tínhamos a meta do famoso ‘1%’ dos países ricos para financiar a emancipação das nações pobres. Acho imprescindível retomá-la.

CM - Mas nem para a fome no Chifre da África há recursos ...

IS - Nunca chegamos perto desse 1%. No melhor dos momentos apenas alguns países escandinavos se aproximaram de 0,8%, algo assim.

CM - Em pleno florescer do arrocho fiscal é viável resgatar essa agenda?

IS - Arrocho fiscal diante de uma crise como essa é um despropósito. Um náufrago agarra qualquer coisa que tenha pela frente, o que não significa que irá se salvar. O que estamos vendo é o oposto do que recomenda o bom senso e o keynesianismo. Não terá êxito. Vejo cinco portas de abertura para a criação de um financiamento adequado às metas de Rio-2012. A primeira, retomar a agenda do famoso 1% dos ricos; a segunda, criar uma taxa sobre emissão de carbono; a terceira, e creio que o momento é muito favorável, retomar a campanha pela taxa Tobin sobre transações financeiras; a quarta, e essa é uma sugestão minha: instituir pedágios sobre oceanos e ares, um percentual mínimo sobre passagens aéreas e marítimas; a quinta, multiplicar acordos plurianuais de comércio internacional, sobretudo de commodities, para estabilizar fluxos e preços e reduzir as flutuações especulativas que causam inflação e fome. Aqui abre-se espaço para resgatar uma proposta de autoria do Kalecki, feita na primeira Unctad, em 1964.

CM - Qual?

IS - A idéia é que nesses acordos comerciais de longo prazo, os preços das commodities tenham cláusula de reajuste bianual. As correções baseadas em médias de bolsas sofreriam um abate de 50% para cima e para baixo: se aumentar 10%, só aumenta 5%; se cai 10% só cai 5%. Com isso se atinge o objetivo de atenuar as flutuações.

CM - Isso tudo pode ser a proposta brasileira na Rio-2012?

IS - Poderia. Mas não acho que teremos um consenso no curto tempo disponível. Não é o fundamental. Insisto que a cúpula do Rio tenha uma natureza deflagradora e organizadora. Que seja capaz de fomentar planos a serem debatidos numa segunda rodada. Os americanos quando fizeram a Aliança para o Progresso, cujo objetivo era combater a Revolução Cubana, acabaram fomentando planos de desenvolvimento local. É um pouco esse efeito que devemos buscar agora para recolocar a agenda ambiental numa mesa ocupada exclusivamente pelas urgências da crise econômica.

CM - O grande ponto de divergência hoje, que divide inclusive esquerda e ambientalistas - e estes e os desenvolvimentistas - é quem vai arcar com o sacrifício do desenvolvimento sustentável. Ou seja, quem vai cortar emissões e quanto?

IS - A resposta é o conceito de pegada ecológica (per capita). Alguns povos, sobretudo países pobres e em desenvolvimento, ainda tem espaço potencial para expandir a pegada; outros, os ricos, terão que reduzi-la. A criação de emprego digno e decente deve pautar tanto a expansão quanto a geração de vagas alternativas no esforço para reduzir a pegada ecológica. Esses elementos devem pautar a formulação dos planos de desenvolvimento sustentáveis e inclusivos em esfera nacional. 

Posteriormente, eles seriam harmonizados em dimensão global.

CM - Além de afrontar a lógica neoliberal, recolocando o planejamento, a sustentabilidade e a justiça social na mesa da crise, que outra marca política forte terá a Rio-2012?

IS - Será a 1º conferência do Antropoceno assumido.

CM - Como assim?

IS - Ao contrário do passado, quando ainda se discutia a influência ou não do homem no metabolismo planetário, agora não há mais dúvidas. Grupos científicos consolidarão até 2012 a evidencia irrefutável – para quem ainda duvida - de que vivemos no Antropoceno. Ou seja, a influência humana pesa de maneira decisiva no comportamento do ambiente terrestre. É o reconhecimento tardio, com dois séculos de atraso, de algo que ocorre desde a Revolução industrial. Mas é um divisor político com desdobramentos importantes.

CM - Por exemplo?

IS - Uma conferência com esse escopo deve ir necessariamente à raiz dos desafios e das responsabilidades. Temos que assumir essa responsabilidade com humildade. Nossa influência é preponderante, mas não somos deuses. Não temos o poder de governar a natureza.

CM - A aceitação do marco antropocênico não pode, ao mesmo tempo, fortalecer catastrofistas, neomalthusianos e similares; enfim, aqueles que recusam o desenvolvimento?

IS - Nós não estamos vivendo uma catástrofe irreversível. Podemos planejar o desenvolvimento sustentável e inclusivo. O catastrofismo e o malthusianismo não se justificam.

CM - A agenda da descarbonização, por exemplo, frequentemente soa como um pedido de renúncia ao crescimento.

IS - Minha posição é muito firme. As teses do decrescimento não procedem. Podemos e devemos crescer. O que é preciso é mudar os rumos do desenvolvimento para que ele seja inclusivo socialmente; e, número dois, tenha baixo impacto ambiental. Para isso é necessário planejamento, com ampla participação da sociedade.

CM - Falar em decrescer significa, por exemplo, deixar fora da discussão ambiental a China, que hoje é a fábrica do mundo...

IS - Descarbonizar a dieta de um camponês chinês e deixar livre o dono de um iate, que se desloca de jatinho de Nova Iorque para velejar na Flórida, é um absurdo. Ademais, não se trata de descarbonizar genericamente. Mas, sim, de renovar a agenda do desenvolvimentismo com base em inclusão e baixo impacto ecológico. A descarbonização será a decorrência desse processo. Não uma restrição antecedente que esmaga quem ainda vive na pobreza.

CM - A ressurgência neomalthusiana forma uma corrente cada vez mais forte; que riscos acarreta ao ambientalismo?

IS - Minha resposta a quem diz que não dá mais, ou seja, que o planeta ficará inviável com 9 bilhões de habitantes é a seguinte: extraia as consequências desse postulado.

CM - Quais são elas?

IS - Estão na obra de Jonathan Swift (*Em 1729, o escritor Jonathan Swift, autor das ‘Viagens de Gulliver, apresentou o que chamou de "modesta proposta" para resolver o problema da infância abandonada no seu país. Famílias pobres venderiam seus filhos para serem degustados como fina iguaria pelas famílias ricas. Segundo ele, sua "modesta proposta" daria renda aos pobres e uma nova delícia gastronômica à nobreza, criaria empregos na rede hoteleira e tiraria da rua a infância abandonada).

CM - Esse é o cardápio oculto do neomalthusianismo?

IS - Sim, e se o diagnostico é esse, vamos dar-lhe as devidas consequências: será por sorteio, por meio de uma guerra nuclear ou através da modesta proposta de Swift? Qual será o método de eliminação do excesso? Infelizmente, há muita gente que pensa de forma malthusiana. Tive uma discussão desse tipo com o oceanógrafo Jacques-Yves Cousteau; Lovelock também pensa assim.

CM - A tese da descarbonização embute esse risco? 

IS - Temos que encarar esse debate seriamente. Mesmo porque a população vai a 9 bilhões, isso está escrito no mapa de percurso da humanidade. Está dado. A pergunta é: podemos ter uma vida razoável com 9 bilhões? Eu acredito que sim, dentro dos parâmetros com os quais qualificamos a nova agenda do desenvolvimento. Agora, podemos ter a mesma qualidade ambiental e social com 90 bilhões de pessoas? Não. Mas a verdade é que uma multiplicação descontrolada como essa apenas evidenciaria a síndrome de um desequilíbrio. A miséria é uma de suas características. A estabilidade demográfica, em contrapartida, ocorre progressivamente desde que outras variáveis estejam presentes, entre elas eliminação da pobreza.

CM - A Europa que já foi importante aliada da agenda ambiental vive um trágico crepúsculo da social-democracia, colonizada pelo neoliberalismo. Isso vai atrapalhar a Rio-2012?

IS - Não vejo a Europa à beira de uma guerra como no final dos anos 30, mas vejo-a, entristecido, perder sua aderência política à idéia de solidariedade. O que ocorre dentro da próprio UE, com os ricos se afastando os mais pobres. Assistimos à emergência de um perigoso egoísmo social. Até prova em contrário, acredito que a solidariedade é um sentimento intrínseco ao fato humano. Ou então teríamos que abraçar a teoria de Hobbes: o homem é o lobo do homem. O capitalismo puro e duro sim, é isso. Daí a necessidade de organizar os contrapesos.

CM - A social-democracia européia renunciou ao social e ao ambiental?

IS - A social-democracia perdeu o rumo há muito tempo. Eles não entenderam o neoliberalismo, quiseram surfar na onda, agora estão encrencados e muitos divididos. As respostas que deram à crise não foram pela esquerda.

CM - Diante da tarefa imensa que é planejar o Antropoceno esse acanhamento europeu não o deixa pessimista?

IS - É muito difícil prever o desfecho político de uma crise dessas proporções. É verdade que ela nos pega despreparados. Não tivemos êxito em reconstruir uma verdadeira organização cooperativa mundial, por exemplo. Pior, regredimos em inúmeras frentes. Estamos muito longe, também, do paradigma fiscal introduzido por Roosevelt nos EUA. Enfim, vivemos uma crise sem um New Deal. No entanto, as coisas mudam muito rapidamente. Veja a crise de 29. Em 36, tivemos a vitória da Frente Popular, na França; em 38, tivemos o acordo de Munique entre França Alemanha e Inglaterra. Em 39 a invasão da Polônia... Ao mesmo tempo, quem teria acreditado em 1987 que dois anos depois a União Soviética desmoronaria? A história quando se movimenta o faz com rapidez e de forma muito distinta dos modelos preconcebidos. Há um espaço para a Eco-2012 e ele pode se ampliar rapidamente. É necessário estar preparado.

Noam Chomsky

fonte - carta maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18896&editoria_id=6



Internacional| 04/11/2011 | Copyleft


Noam Chomsky: se queremos mudar o mundo, vamos entendê-lo

O aspecto mais digno de entusiasmo do movimento Ocupa Wall Street é a construção de vínculos que estão se formando em toda parte. Karl Marx disse: a tarefa não é somente entender o mundo, mas transformá-lo. Uma variante que convém ter em conta é que, se queremos com mais força mudar o mundo, vamos entendê-lo. Isso não significa escutar uma palestra ou ler um livro, embora essas coisas às vezes ajudem. Aprende-se a participar. Aprende-se com os demais. Aprende-se com as pessoas com quem se quer organizar. O artigo é de Noam Chomsky.

Noam Chomsky - La Jornada

Dar uma conferência Howard Zinn é uma experiência agridoce para mim. Lamento que ele não esteja aqui para tomar parte e revigorar um movimento que foi o sonho de sua vida. Com efeito, ele pôs boa parte de seus ensinamentos nisso.

Se os laços e associações que se estão estabelecendo nesses acontecimentos notáveis puderem se sustentar durante o longo e difícil período que os espera – a vitória nunca chega logo -, os protestos do Ocupar Wall Street poderão representar um momento significativo na história estadunidense.

Nunca tinha se visto nada como o movimento Ocupa Wall Street, nem em tamanho nem em caráter. Nem aqui nem em parte alguma do mundo. As vanguardas do movimento estão tratando de criar comunidades cooperativas que bem poderiam ser a base de organizações permanentes, de que se necessita para superar os obstáculos vindouros e a reação contra o que já está se produzindo.

Que o movimento Ocupem não tenha precedentes é algo que parece apropriado, pois esta é uma era sem precedentes, não só nestes momentos, mas desde os anos 70.

Os anos 70 foram uma época decisiva para os Estados Unidos. Desde a sua origem este país teve uma sociedade em desenvolvimento, não sempre no melhor sentido, mas com um avanço geral em direção da industrialização e da riqueza.

Mesmo em períodos mais sombrios, a expectativa era que o progresso teria de continuar. Eu tenho idade o suficiente para recordar da Grande Depressão. De meados dos anos 30, quando a situação objetivamente era muito mais dura que hoje, e o espírito bastante diferente.

Estava-se organizando um movimento de trabalhadores militantes – com o Congresso de Organizações Industriais (CIO) e outros – e os trabalhadores organizavam greves e operações padrão a ponto de quase tomarem as fábricas e as comandarem por si mesmos.

Devido às pressões populares foi aprovada a legislação do New Deal. A sensação que prevalecia era que sairíamos daqueles tempos difíceis.

Agora há uma sensação de desesperança e às vezes desespero. Isto é algo bastante novo em nossa história. Nos anos 30, os trabalhadores poderiam prever que os empregos iriam voltar. Agora, os trabalhadores da indústria, com um desemprego praticamente no mesmo nível que durante a Grande Depressão, sabem que, se as políticas atuais persistirem, esses empregos terão desaparecido para sempre.

Essa mudança na perspectiva estadunidense evoluiu a partir dos anos 70. Numa mudança de direção, vários séculos de industrialização converteram-se numa desindustrialização. Claro, a manufatura seguiu, mas no exterior; algo muito lucrativo para as empresas mas nocivo para a força de trabalho.

A economia centrou-se nas finanças. As instituições financeiras se expandiram enormemente. Acelerou-se o círculo vicioso entre finanças e política. A riqueza passou a se concentrar cada vez mais no setor financeiro. Os políticos, confrontados com os altos custos das campanhas eleitorais, afundaram profundamente nos bolsos de quem os apoia com dinheiro.

E, por sua vez, os políticos os favoreciam, com políticas favoráveis a Wall Street: desregulação, transferências fiscais, relaxamento das regras da administração corporativas, o que intensificou o círculo vicioso. O colapso era inevitável. Em 2008, o governo mais uma vez resgatou as empresas de Wall Street que eram supostamente grande demais para quebrarem, com dirigentes grandes demais para serem encarcerados.

Agora, para 10% de 1% da população que mais se beneficiou das políticas recentes ao longo de todos esses anos de cobiça e enganação, tudo vai muito bem.

Em 2005, o Citigroup – que certamente foi objeto em ocasiões repetidas de resgates do governo – viu o luxo como uma oportunidade de crescimento. O banco distribuiu um folheto para investidores no qual os convidava a investirem seu dinheiro em algo chamado de índice de plutonomia, que identificava as ações das companhias que atendessem ao mercado de luxo.

Líderes religiosos, principalmente da comunidade de negros, cruzaram a ponte do Brooklyn no último domingo com lonas e tendas para entregá-las aos membros do movimento Ocupar Wall Street que estão acampados no coração econômico da cidade de Nova York.

O mundo está dividido em dois blocos: a plutocracia e o resto, resumiu. Estados Unidos, Grã Bretanha e Canadá são as plutocracias-chave: as economias impulsionadas pelo luxo.

Quanto aos não ricos, às vezes se lhe chamam de precariado: o proletariado que leva uma existência precária na periferia da sociedade. Essa periferia, no entando, converteu-se numa proporção substancial da população dos Estados Unidos e de outros países.

Assim, temos a plutocracia e o precariado: o 1% e os 99%, como se vê no movimento Ocupem. Não são cifras literais mas sim, é a imagem exata.

A mudança história na confiança popular no futuro é um reflexo de tendências que poderão ser irreversíveis. Os protestos do movimento Ocupem são a primeira reação popular importante que poderão mudar essa dinâmica.

Eu me detive nos assuntos internos. Mas há dois acontecimentos perigosos na arena internacional que ofuscam todos os demais.

Pela primeira vez na história há ameaças reais à sobrevivência da espécie humana. Desde 1945 temos armas nucleares e parece um milagre que tenhamos sobrevivido. Mas as políticas do governo Barack Obama estão fomentando uma escalada.

A outra ameaça, claro, é a catástrofe ambiental. Por fim, praticamente todos os países do mundo estão tomando medidas para fazer algo a respeito. Mas os Estados Unidos estão regredindo.

Um sistema de propaganda reconhecido abertamente pela comunidade empresarial declara que a mudança climática é um engano dos setores liberais. Por que teríamos de dar atenção a esses cientistas?

Se essa intransigência no país mais rico do mundo continuar, não poderemos evitar a catástrofe.

Deve fazer-se algo, de uma maneira disciplinada e sustentável. E logo. Não será fácil avançar. É inevitável que haja dificuldades e fracassos. Mas a menos que o processo estão ocorrendo aqui e em outras partes do país e de todo o mundo continue crescendo e se converta numa força importante da sociedade e da política, as possibilidades de um futuro decente são exíguas.

Não se pode lançar iniciativas significativas sem uma ampla e ativa base popular. É necessário sair por todo o país e fazer as pessoas entenderem do que se trata o movimento Ocupar Wall Street, o que cada um pode fazer e que consequências teria não fazer nada.

Organizar uma base assim implica educação e ativismo. Educar as pessoas não significa dizer em que acreditar; significa aprender dela e com ela.

Karl Marx disse: a tarefa não é somente entender o mundo, mas transformá-lo. Uma variante que convém ter em conta é que, se queremos com mais força mudar o mundo, vamos entendê-lo. Isso não significa escutar uma palestra ou ler um livro, embora essas coisas às vezes ajudem. Aprende-se a participar. Aprende-se com os demais. Aprende-se com as pessoas com quem se quer organizar. Todos temos de alcançar conhecimentos e experiências para formular e implementar ideias.

O aspecto mais digno de entusiasmo do movimento Ocupar Wall Street é a construção de vínculos que estão se formando em toda parte. Esses laços podem se manter e expandir, e o movimento poderá dedicar-se a campanhas destinadas a porem a sociedade numa trajetória mais humana.

(*) Este artigo é uma adaptação de uma fala de Noam Chomsky no acampamento Occupy Boston, na praça Dewey, em 22 de outubro. Ele falou numa atividade de uma série de Conferências em Memória de Howard Zinn, celebrada pela Universidade Livre do Ocupar Boston. Zinn foi historiador, ativista e autor de A People’s History of the United States.)

(**) Chomsky é professor emérito de Linguística e Filosofia do Instituto Tecnológico de Massachusetts, em Cambridge, Massachusetts. É o maior linguista do século e um dos últimos anarquistas sérios do planeta.

Tradução: Katarina Peixoto

conversão do cético sobre o clima

fonte - observatório da imprensa
http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_conversao_do_cetico



MUDANÇAS CLIMÁTICAS

A conversão do cético

Por Luciano Martins Costa em 01/11/2011 na edição 666
Comentário para o programa radiofônico do OI, 1/11/2011
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Uma nota minúscula publicada na edição de terça-feira (1/11) do jornal O Estado de S.Paulo diz muito sobre certas birras que a imprensa brasileira produz quando se deixa levar por tendências conservadoras. Diz o texto que o “proeminente físico e cético do aquecimento global Richard Muller” acaba de concluir que a teoria dos 4 mil especialistas reunidos pela ONU para as pesquisas sobre as causas antropogênicas das mudanças climáticas estava correta.
Muller passou dois anos tentando contestar a tese de que a atividade humana altera o sistema climático para, recentemente, concluir que ele é que estava equivocado. O físico americano, da Universidade Berkeley, na Califórnia, descobriu que o solo está cerca de 1,6o C mais quente que na década de 1950.
Nada contra o ceticismo ou a favor da unanimidade. Afinal, na ciência, assim como na política, na biologia e na cultura, a diversidade é sinal de riqueza. Richard Muller, assim como outros céticos, como os cientistas Michael Crichton, Nigel Calder e Bjorn Lomborg, tinham todo direito e até mesmo a obrigação de manifestar suas discordâncias, uma vez que estavam convencidos de que a tese divulgada em fevereiro de 2007 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) continha imprecisões.
Nota envergonhada
O que se observa aqui é como a imprensa brasileira, de modo geral, dedicou, nos dois anos seguintes ao anúncio do estudo geral sobre o clima, um espaço desproporcional aos céticos, contribuindo para atrasar medidas urgentes de mitigação dos efeitos do aquecimento global.
A nota quase escondida pelo Estadão na verdade não traz uma informação inédita: desde o começo deste ano Richard Muller vem dando pistas de que mudaria de opinião. Já em abril, quando foi levado ao Congresso dos Estados Unidos como “testemunha” do Partido Republicano contra a tese das mudanças climáticas, ele contrariou seus patrocinadores e afirmou que seus estudos preliminares o conduziam a uma conclusão de uma tendência global de aumento da temperatura “muito semelhante” ao que fora anunciado pelos autores do relatório do IPCC. Depois disso, Muller foi abandonado pelos seus padrinhos e pela mídia, e aparece agora confirmando aquilo que todos sabiam.
Se a comunidade científica mundial – contra a opinião de meia dúzia de contestadores – afirma que o sistema econômico global, as políticas urbanas, o modelo agrícola e os hábitos dos consumidores precisam mudar para evitar uma catástrofe, por que razão a imprensa resistiu tanto a aceitar a necessidade de novos paradigmas?
E quando uma de suas fontes de informação mais conceituadas muda de lado, por que essa notícia é escondida em uma nota curta e envergonhada em vez de ser estampada com o mesmo destaque que tinha quando ele contestava a tese do aquecimento?
A pergunta-síntese que não quer calar é: por que, diante de qualquer dilema, a imprensa, de modo genérico, escolhe a alternativa mais conservadora?

‘Yearning for a more beautiful world’: Pre-Raphaelite and Symbolist works from the collection of Isabel Goldsmith

https://www.christies.com/features/pre-raphaelite-works-owned-by-isabel-goldsmith-12365-3.aspx?sc_lang=en&cid=EM_EMLcontent04144C16Secti...