“Sou cada pedaço infernal de mim”: confira citações verdadeiras de Clarice Lispector
Frases falsamente atribuídas à autora circulam há anos pelas redes sociais
Clarice Lispector nasceu há cem anos, em 10 de dezembro de 1920Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal
Nascida há cem anos na Ucrânia, mas desde a infância criada em território brasileiro, Clarice Lispector cresceu para se tornar uma das maiores figuras da literatura em língua portuguesa. Narrando o cotidiano com um lirismo único, ela ficou conhecida por mergulhar profundamente no universo particular de seus protagonistas.
Nos últimos anos, no entanto, uma avalanche de citações falsamente atribuídas a ela borram sua imagem nas redes sociais. Por isso, GZH reuniu 15 citações verdadeiras de Clarice e os livros em que elas podem ser encontradas.
“Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”, de Perto do Coração Selvagem, 1943
“Era finalmente o natural viver sozinha”, de O Lustre, 1946
“A realidade precisava da mocinha para ter uma forma”, de A Cidade Sitiada, 1949
“Seu coração faminto dominou desajeitado o vazio”, de A Maçã no Escuro, 1961
“Sou cada pedaço infernal de mim”, de A Paixão segundo G.H., 1964
“A esperança era o meu pecado maior”, de A Legião Estrangeira, 1964
“Sua alma incomensurável. Pois ela era o Mundo”, de Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, 1969
“Mas sentimentos são água de um instante”, de Felicidade Clandestina, 1971
“Sou um coração batendo no mundo”, de Água Viva, 1973
“Amizade é matéria de salvação”, de Onde Estivestes de Noite, 1974
“Vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento”, de A Hora da Estrela, 1977
“É que os infelizes se compensam”, de Um Sopro de Vida, 1978
“A tímida e voraz curiosidade pela alegria”, de Para Não Esquecer, 1978
“Seu corpo também reclama direitos...”,de A Bela e a Fera, 1979
“Ser às vezes sangra”, de A Descoberta do Mundo, 1984
Em nosso post de hoje de Pandemia, Cultura e Sociedade – uma parceria do Blog da BVPS com a revista Sociologia & Antropologia (PPGSA/UFRJ) – Rafael Lovisi Prado contribui com três poemas inéditos de uma série sobre o vírus, seguidos de uma pequena nota crítica assinada pelo nosso editor da coluna Interpretações do Brasil e Poesia, Lucas van Hombeeck.
Uma boa leitura!
Marina Abramović receituário de acontecimentos
quando se instala um estado de suspensão, saudável é atravessar a greta entre os corpos e arriscar segurar teso o arco letal da tensão
salutar também deitar os ossos sobre o calor das velas e sentir às costas o o risco inflamando – pentear os cabelos (antes atados, aos poucos no chão) até que a beleza se dilua diante do espelho e e acabe em experimentação
saúde assim seria percorrer de ponta a ponta as muralhas da China, rito dos amantes que após anos sentados em companhia preparam caminhando a chegada da solidão
René Magritte pintar o lado de lá
dentro da habitação os objetos passaram a ter outras proporções tanto pente pincel taça quanto céu que no quarto refletido tornou as paredes nuvens pairando num pélago invertido
naquela clausura com indefinida abertura via a si mesmo à beira d’água mas parado na areia, pernas de homem cabeça de peixe, respirar nem mergulhar podia, caso um beijo desse vinha-lhe à boca sangue da memória dos findos dias
foi então que abriu o cavalete e fez do mar sua extensão, maneira que encontrou de se dar porvir – ovo pintado prestes a eclodir – pois pensar no passado a esta altura seria como olhar a tela fria e ver projetada somente a própria nuca
Hélio Oiticica gimme shelter
não se está só na casa-mundo, abrigo da beira, aberto, que como capa multimodal veste o corpo multivalente ambiente, tenda multicolor vivenda onde se pisa areais, pedras, passa-se via penetráveis fendas, lança-se em lentos labirintos, diz-se aos quantos cantos a todos os ventos: a margem não é maldição, mas prova de que a coisa nova se funda, afunda o fundado. pura montagem premonição profunda do advento
Rafael Lovisi Prado é poeta, pesquisador e professor da área de Literatura Comparada e Teoria da Literatura.
Estreando a contribuição em verso para a coluna Pandemia, Cultura e Sociedade, Rafael Lovisi Prado envia para o blog da BVPS três poemas de uma série sobre o vírus: Marina Abramović/receiturário de acontecimentos, René Magritte/pintar o lado de lá e Hélio Oiticica/gimme shelter. Neles, o estar-só nunca é sozinho, da mesma forma que a individualidade, como aprendemos com a sociologia, é uma condição social: no primeiro poema há uma cuidadosa preparação da solidão pelos amantes, enquanto no segundo os objetos mostram sua agência e delírio e, no último, os primeiros versos dizem de partida que “não se está só/na casa-mundo, abrigo”. É que, neles, a poesia convive com os trabalhos de não-poetas (uma performer, um pintor, e um artista bastante difícil de classificar) propondo a convivência também entre esses artistas por meio de seus trabalhos, em diferentes modulações de um problema que grande parte do mundo enfrenta hoje: o isolamento e a precariedade das formas de subjetivação da vida cotidiana e danificada. Se quisermos sair da pandemia inventando novas relações, é bom começarmos a imaginá-las. Agradecemos ao Rafael por compartilhar conosco sua contribuição para a tarefa.
The moon glows like phosphorous on the vagrant waters.
Days, all one kind, go chasing each other.
La nebbia si scioglie in figure danzanti.
Un gabbiano d'argento si stacca dal tramonto.
A volte una vela. Alte, alte, stelle.
O la croce nera di una nave.
The snow unfurls in dancing figures.
A silver gull slips down from the west.
Sometimes a sail. High, high stars.
Oh the black cross of a ship.
Alone.
A volte albeggio, ed è umida persino la mia anima.
Suona, risuona il mare lontano.
Questo è un porto.
Qui ti amo.
Sometimes I get up early and even my soul is wet.
Far away the sea sounds and resounds.
This is a port.
Qui ti amo e invano l'orizzonte ti nasconde.
Ti sto amando anche tra queste fredde cose.
A volte i miei baci vanno su quelle navi gravi,
che corrono per il mare verso dove non giungono.
Mi vedo già dimenticato come queste vecchie àncore.
I moli sono più tristi quando attracca la sera.
Here I love you.
Here I love you and the horizon hides you in vain.
I love you still among these cold things.
Sometimes my kisses go on those heavy vessels
that cross the sea towards no arrival.
I see myself forgotten like those old anchors.
The piers sadden when the afternoon moors there.
La mia vita s'affatica invano affamata.
Amo ciò che non ho. Tu sei così distante.
La mia noia combatte coni lenti crepuscoli.
Ma la notte giunge e incomincia a cantarmi.
La luna fa girare la sua pellicola di sogno.
Le stelle più grandi mi guardano con i tuoi occhi.
E poiché io ti amo, i pini nel vento
vogliono cantare il tuo nome con le loro foglie di filo metallico.
My life grows tired, hungry to no purpose.
I love what I do not have. You are so far.
My loathing wrestles with the slow twilights.
But night comes and starts to sing to me.
The moon turns its clockwork dream.
The biggest stars look at me with your eyes.
And as I love you, the pines in the wind
want to sing your name with their leaves of wire.
Lisa G. - professional painter born in Montreal, Canada living near Paris France. Self educated painter I am passionate by the color and the matter my painting is built by short stories witch I like to imagine spontaneously. My main topics are love, peace tolerance, freedom but I also like to play with humour through my stories. In short terms, I function with the emotion and imagination. She says:
“I believe that I can express myself only through form and painting. It is a universal language by which all my emotions passes from my mind. It is my way of existing, my breath”.
Como os poetas terminam – literatura e
indigência no Brasil
Orides Fontela, Horacio
Quiroga e Claudio Willer: três grandes artistas que enfrentaram penúrias
(Arte: Andreia Freire/Revista CULT)
Em 1928, no auge de sua popularidade,
o escritor uruguaio Horacio Quiroga (1878-1937), num artigo chamado “A
profissão literária”, fazia um balanço de sua carreira, pensando
sobretudo na remuneração dos autores. Ao fechar sua dolorosa
contabilidade, concluiu: “Durante os 26 anos que vão de 1901 até hoje,
ganhei com minha profissão 12.400 pesos. Este montante em tal período de
tempo equivale a um salário de 39,70 pesos por mês. (…) Se eu tivesse
que ganhar a vida exclusivamente com isso, teria morrido após sete dias
de me iniciar em minha vocação, com as entranhas roídas”. Em outro artigo do mesmo ano, Quiroga, numa série de biografias breves chamada Heroísmos, referia-se
a Edgar Allan Poe (1809-1849), cujas cartas revelam que ganhava ainda
menos por seus contos. Em maio de 1844, à editora da revista The Opal,
Poe dizia: “O preço que a senhora me indica – 50 centavos por página –
me parece suficientemente bom”. Estranho pensar que o autor de “O gato
preto” e “O corvo”, apesar de gozar de reconhecimento público, vivia em
condição de semi-indigência e, cinco anos depois, morreria de delirium tremens. O próprio Horacio Quiroga, apenas
seis anos após tais artigos, começou a enfrentar reveses econômicos: um
golpe militar no Uruguai levou-o a ser exonerado de seu cargo de
diplomata, sem tampouco conseguir se aposentar. Já sem grande prestígio
na imprensa local, acabou passando os anos finais com dificuldades
financeiras, vindo a morrer após cinco meses internado no Hospital de
Clínicas de Buenos Aires. Ao descobrir que padecia de um câncer
incurável, suicidou-se. Nosso desejo de que esses destinos
literários fossem mera memória de tempos idos se vê desmentido por
recentes histórias nacionais. Descontados
altos e baixos, nas últimas décadas, no Brasil, a situação de quem se
atreve viver do que escreve não é muito melhor: Orides Fontela
(1940-1998), Hilda Hilst (1930-2004), Roberto Piva (1937-2010) – os três
grandes poetas viveram penúrias em seus anos finais. Na Folha de S. Paulo, em 1996, uma matéria de Elvis Bonassa descrevia o cotidiano de Fontela, às vésperas do lançar seu livro Teia:
“Orides Fontela, 55, ganha apenas uma aposentadoria de R$ 423. Mora no
prédio da Casa do Estudante, na Av. São João, acolhida por uma amiga
após deixar, por falta de dinheiro, um apartamento alugado. Orides
Fontela é uma das mais respeitadas poetisas brasileiras”. No mesmo
jornal, em 2005, Julián Fuks assim descrevia Piva: “Aqueles leitores da
década de 1960 (…) talvez se entristecessem ao ver Piva trancafiado em
seu apartamento na Santa Cecília, já descrente da vida que pulsa nas
ruas. Das ruas, segundo denunciam suas janelas fechadas e empoeiradas,
só lhe alcança o som das buzinas”. Em tempos bem recentes, no início de
2018, veio a público um alerta da situação financeira delicada de outro
grande da cena nacional: Claudio Willer. Após ter sido uma das
figuras-chave da geração dos Novíssimos; ter tido verbete a ele dedicado
no Dictionnaire général du Surréalisme et de ses environs, de Adam & Passeron (1982); ter
traduzido Láutreamont, Artaud, Ginsberg e Kerouac no Brasil; ter
escrito obras de referência sobre gnose e gnosticismo na literatura
ocidental e sobre a beat generation;
ter influenciado poetas com sua poesia e suas oficinas literárias; após
ter feito tudo isso, Willer não conseguia mais pagar o aluguel de seu
apartamento, onde vivia com a companheira e artista plástica Maninha
Cavalcante. Ora, se ter criado a literatura policial e ter escrito O Corvo (1845) e Filosofia da Composição (1846) não salvou Poe da indigência; por que obras como Anotações para um apocalipse (1964)ou Volta (1996) protegeriam Willer de ser acossado pela carestia? É certo que a crise econômica que o
Brasil passou a enfrentar ao menos desde 2013 tem um papel nisso. Mas
não apenas ela: cabe suspendermos o texto para fazer um minuto de
silêncio – e reflexão – pelo Sabático do Rinaldo Gama; o Prosa & Verso da Mànya Millen; o Guia de Livros, Discos e Filmes do Manuel da Costa Pinto; o Rádio ao Vivo de Menegatti, Oliveira Andrade e Cris Santos; o Pensar do João Paulo Cunha; o Ideias & Livros do Álvaro da Costa e Silva; a Bravo!…
Enfim, a crise. Menos livros, menos livrarias, menos ideias circulando,
menos oficinas literárias, menos resenhas a escrever e a ler.
Orçamentos reduzidos nos SESCs, nas universidades, menos apoio nas
agências de fomento. A literatura e as artes saindo com velocidade do
centro da cena. Num contexto como o atual –
anticultural, obscurantista, truculento – é certo que floresce a
cultura de resistência, e incontáveis são os projetos de gente vigorosa
que afronta a tempestade – livros, saraus, slams,
editoras de resistência, portais, revistas, críticos independentes –
coletivos e pessoas que têm força para, à margem, criar e fazer circular
arte. Resta, entretanto, a pergunta incômoda: e quem, como Willer, ao
78 anos, já militou pela poesia não apenas na escrita, mas também em
eventos-chave como na realização da Feira de Poesia e Arte,
no Theatro Municipal, num Brasil sob ditadura, em novembro de 1976? E
que depois atuou, na UBE, na FUNARTE e em incontáveis outras
instituições? O que faz o poeta septuagenário quando o ambiente se torna
inóspito? Continua como mascate lírico, oferecendo oficinas, cursos,
palestras, conferências, para além dos limites físicos, em troca de uns pro labore que nunca bastam para pagar alugueis, remédios e a mera subsistência? Continua escrevendo livros para a posteridade? Há um momento da vida humana – mesmo
a dos poetas – no qual o corpo começa a cobrar seus preços, e o
escritor precisa fazer frente à intempérie. Caibam três notas: (1) que,
no Brasil, quem foi autônomo ao longo da vida, na velhice tem seus
rendimentos de aposentadoria não superiores a um salário mínimo: menos
de mil reais; (2) que direitos autorais de poetas rendem, quando muito,
algumas dezenas de moedas; (3) que no Brasil não há pensões a artistas
que tenham prestado serviços relevantes à cultura, como ocorre em países
como Portugal e na Itália, por exemplo. O que fazer? No início de 2018, como disse,
leitores, artistas, intelectuais e amigos de Claudio Willer lançaram a
campanha de apoio ao poeta. O objetivo era simples: levantar dinheiro
para que ele pudesse pagar as contas atrasadas e apoiar o tratamento de
sua companheira. Contas foram pagas e ele foi viver num apartamento, que
há duas semanas teve de desocupar. Aos 78 anos, vivendo provisoriamente
num hotel, já se sabe que a vida financeira não irá melhorar, que não
há guinadas ou golpes de sorte. É preciso contar com uma rede de apoio
perene, com ingressos mensais, que não obriguem a forçar uma coluna
vertebral que já sustentou poesia, reflexão e devaneio por todo o
território brasileiro. Como não temos no horizonte deste
país a criação de uma lei de pensões a artistas veteranos – os que
combateram por décadas pela dimensão vivificadora da arte para fazer da
criatura humana um ser menos abjeto – então o artigo se transforma em
apelo: por que não apoiar o poeta vivo – Claudio Willer –, por que não
apoiá-lo como a um ser que se estima? Se o poeta se faz à margem das
instituições, para nos fazer ver lados outros das coisas, porque não
sustentá-los com delicadeza no ar, no instante duro da queda? WILSON ALVES-BEZERRA é escritor, tradutor, crítico
literário e professor de literatura. Leciona no Departamento de Letras
da UFSCar e já traduziu autores latino-americanos como Horacio Quiroga e
Luis Gusmán.
Nas proximidades da celebração de 70 anos da Declaração dos Direitos
Humanos, pedi uma licença poética para evitar a linguagem sexista e
ressignificar "Estatuto do Homem" (1964) por estatuto do HUMANO. Perdoe,
Thiago de Mello! Mas as mulheres se sentem mais felizes!
POEMA: Estatuto do Homem, de Thiago de Mello
MÚSICA: AIR(ária na corda sol),Johann Sebastian Bach
O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define?
Já
tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme
tristeza. Concordo com Mario Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O
diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora…
Eram
6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a
pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai
sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio
em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar…” Ela, menina de três
anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.
Cecília Meireles
sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a
algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem
barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o
horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só
isto…”
Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia
uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe
lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O
que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. “Minha filha,
sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa…”
Mas
tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores,
humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha
vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim
mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas
comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada.
Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem
dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a
visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me
dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis.
Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao
médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que
meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O
senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.
Há
dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está
nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai
morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba,
apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver
feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o
nome de ética.
Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo,
todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um
acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da
guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido
pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever:
debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu
inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.
Dir-me-ão
que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue.
Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de
ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência
pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais
precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O
coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os
ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas
cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca
me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas
cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos
humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta
a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se
transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados
“recursos heróicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de
vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se
os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a
ouviriam dizer: “Liberta-me”.
Comovi-me com o drama do jovem
francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo,
tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por
meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um
livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia,
eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei…”.
Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades,
movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu
desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras
sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para
morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência
pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue
quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade
médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que
estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se
prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada
de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova
especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus
braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.
— Rubem Alves, crônica publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12.10.03. Saiba mais sobre Rubem Alves: Rubem Alves – o aprendiz de feiticeiro Rubem Alves (Crônicas, contos e afins)