Monday, 14 May 2012

Um tratado sobre poética disfarçado de poesia

comunicação social, usp
http://comunicacao.fflch.usp.br/node/751


Um tratado sobre poética disfarçado de poesia

Manoel de Barros



“A poesia está guardada nas palavras
– é tudo que eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.

Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias
(do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.”

Tratado geral das grandezas do ínfimo, Manoel de Barros
*

Por Bruna Escaleira

No ano em que o livro “Tratado geral das grandezas do ínfimo”, do poeta mato-grossense Manoel de Barros, completa dez anos de publicação, Carlos Eduardo Brefore Pinheiro defende sua Tese de Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada “Entre o ínfimo e o grandioso, entre o passado e o presente: o jogo dialético da poética de Manoel de Barros”. Ao analisar as relações antagônicas que não apenas regem esta “obra-tratado”, como constituem o cerne do processo criativo do poeta, o pesquisador buscou chegar a um patamar interpretativo sobre os fundamentos que o norteiam e as tendências poéticas que trilhou, sem perder de vista o diálogo aberto pelo artista, avivando relações entre cultura, arte e sociedade. Em entrevista ao Serviço de Comunicação Social da FFLCH - USP, Pinheiro aponta as contribuições do poeta para os dias de hoje e detalha os pontos mais importantes de sua tese.



Serviço de Comunicação Social: Como a obra do autor se relaciona à produção cultural de hoje? Qual a importância de Manoel de Barros para as gerações atuais e futuras?

Carlos Eduardo Brefore Pinheiro: A obra de Manoel de Barros começou a ganhar o reconhecimento público nos últimos anos. Embora o autor publique seus poemas desde 1937, foi na década de 90 que seus livros começaram a ser percebidos pela crítica especializada. É nessa época que surgem as primeiras pesquisas acadêmicas sobre este poeta e também sua projeção na mídia. Podemos considerar hoje Manoel de Barros um dos poetas mais assediados pela imprensa, o que lança sua obra na direção de diferentes públicos, não apenas o universitário. Creio que as gerações futuras verão Barros como um escritor preocupado constantemente com o pensar sobre o fazer literário, visto o questionamento constante que sua poesia faz: o que é fazer poesia?

S.C.S.: O que o levou a escolher o livro “Tratado geral das grandezas do ínfimo” para abordar a dialética em Manoel de Barros? Como este tratado se contextualiza e o que representa na obra do poeta?

C.E.B.P.: Pensando que uma das constantes da poesia de Manoel de Barros é o auto-questionamento sobre a criação poética, o título da obra (“tratado”) chamou-me a atenção no sentido de tentar entender este volume específico da produção literária de Barros não apenas como um livro de poemas, mas como um tratado moderno sobre poética disfarçado de livro de poesia. Cotejando o livro em questão com os demais da obra do poeta, pude perceber uma retomada de temas e propostas de produção literária que já se anunciavam desde o “Livro sobre nada”, publicado em 1996, e que, de lá para cá, se tornaram o cerne de sua criação estética. O “Tratado” seria então uma espécie de sistematização, por via poética, da concepção literária que norteia o trabalho de Manoel de Barros ao longo desses anos.

S.C.S.: Como se articulam as relações dialéticas entre “ínfimo e grandioso” e “passado e presente” nos poemas do autor?

C.E.B.P.: Compondo poemas voltados para a infância como tempo/espaço idealizado, para os seres do ambiente pantaneiro, inclusive os mais ínfimos, e para a própria poesia, Barros demonstra que sua obra se forma e se movimenta por meio de um mecanismo dialético entre semas paradoxais: o ínfimo e o grandioso; o passado e o presente. Mais do que um simples jogo antitético entre estes elementos, porém, suas composições estabelecem uma relação muito particular entre eles, como desenvolvido nas análises. Com isso em vista, a proposição da minha tese foi a de demonstrar que entre (a) passado e (b) presente existe a intenção de um resgate (no plano da criação literária) – uma infância utópica que é rememorada em função de um projeto estético que se alicerça como um processo paradoxal de volta às origens dos seres, das coisas e da própria linguagem. Além disso, entre (c) grandioso e (d) ínfimo existe uma intenção de valoração – o ínfimo é evidenciado e valorado em função de uma ligação, direta ou indireta, com elementos que são em si mesmos grandiosos, ou que induzam a tal pensamento.

S.C.S.: Fale sobre os tipos de relações que o poeta estabelece entre a figura humana, a natureza e o tempo.

C.E.B.P.: Neste caminho, planejado e trilhado por Manoel de Barros para a criação deste seu “Tratado geral das grandezas do ínfimo”, dentro da articulação entre as duas macrorrelações basilares na arquitetura da obra, isto é, (a) o grandioso e o ínfimo e (b) o passado e o presente, é a figura do ser humano o elemento de ligação entre todas estas vertentes. Numa perspectiva espacial, é o movimento cósmico empreendido pelo sujeito (e, por extensão, pelo ser humano em geral) que ligará o céu e a terra, a altura e a profundidade, os seres do céu e os seres do chão, os reinos animal, vegetal e mineral, metamorfoseando-os em função da criação literária. Já numa perspectiva temporal, é o movimento empreendido pelo sujeito na busca do tempo pedido da infância como tempo mítico, das origens (do homem, dos seres, do mundo e da linguagem), gerador da percepção estética que se instaura no momento presente, materializada num objeto concreto – o “Tratado”. Assim, na visão de Manoel de Barros, as relações que se estabelecem a partir da figura do sujeito – entre o céu e a terra, entre o grandioso e o ínfimo, entre o passado e o presente, entre os diferentes reinos da natureza – são a expressão poética das manifestações do devir da vida humana.

S.C.S.: Em sua opinião, quais as principais tendências poéticas trilhadas por Manoel de Barros? Quais destas tendências o autor tomou como referência para seu trabalho e de quais foi precursor e referência?

C.E.B.P.: É comum, nos estudos acadêmicos sobre Manoel de Barros, as tentativas de fazer uma leitura comparativa de sua obra, ligando-a à produção literária de autores como Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Creio que as marcas de intertextualidade não podem ser negadas, visto que Barros faz referências explícitas a autores, teóricos e artistas em geral. Porém ficarmos no plano da simples comparação é empobrecer sua obra enquanto criação original. Embora sua produção se estenda por mais de 70 anos, a rigor, este poeta não se filia a nenhum momento das chamadas “gerações modernistas”, o que faz de sua obra algo singular dentro do quadro da poesia brasileira moderna. Talvez possamos encarar Manoel de Barros como um poeta precursor se pensarmos na constante autorreferenciação que sua obra faz enquanto criação poética, na atitude abertamente lúdica que o poeta dá a seus poemas, vistos como um jogo a ser jogado pelos leitores, que requer a apropriação de regras muito próprias, as quais o próprio autor dá, por meio de seus metapoemas.
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