Sunday, 23 October 2011

dança para o espírito - maiwu

fonte:
http://www.overmundo.com.br/overblog/bororo-quando-o-aroe-maiwu-danca-para-os-espirito



Antonio João - Merireu

(MERIREU minha nominação Bororo: Meri = foi um dos heróis míticos e reformulador da cultura Bororo, é representado materialmente pelo sol e seu irmão Ari um trapalhão, é representadp pela lua. Ambos viveram nas aldeias Bororo, ensinaram muita coisa que hoje os Bororo usufuem, mas também provocou a ira dos Bororo que com grandes abanos trançados de folíolos de babaçu conseguiram devolve-los no lugar que estão hoje.Reu é um qualificativo significando em Bororo: aquele que tem a qualidade do espírito Meri. 





BORORO-QUANDO O ARÓE MAÍWU DANÇA PARA OS ESPIRITO

MERIREU
MERIREU BORORO
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MERIREU · Cuiabá, MT
29/3/2010 · 4 · 9
Entre 1980 e 1982, como Técnico Indigenista da FUNAI, vivi com os índios Bororo do Koroguedo Bororo (Aldeia Córrego Grande) do Posto Indígena Gomes Carneiro-T.I. Teresa Cristina no pantanal do São Lourenço em Mato Grosso e considerada o centro cultural desse povo.
Apesar de já ter convivido com vários povos indígenas como: os Kadiwéu-Guaikuru da Reserva Bodoquena no pantanal do Aquidabã-Nalique – Nabileque do Mato Grosso do Sul e com os Umutina, conhecidos como Barbados, da barra dos rios Bugres e Paraguai, em Mato Grosso. Também, quando administrei a Unidade Autônoma de Araguaina - FUNAI (1982 / 1984), na época Norte de Goiás, hoje Estado do Tocantins, tive a oportunidade de conhecer os Krahô, Xerente, Apinajé, Karajá e principalmente de ter organizado e coordenado a Frente de Atração dos Avá-Canoeiro de Minaçu, onde contatamos os quatro índios sobreviventes desse povo e que muito me sensibilizou. Mas, foi o mergulho na cosmurgia Bororo que me capturou para sempre, a ponto de meus pertences mais pessoais, como a rede em que dormia, minhas roupas e cadernos de anotações estarem até hoje guardados e todos besuntados do vermelho do urucu. Isso porque, adotado pelos Bororo, minha muga (mãe ritual) matriarca dos Baado Jeba, clã da metade Echerae, de onde saem todos os chefes da aldeia, pintava-me sempre com a pintura de Bakororo Imo (pintura do herói mítico Bakororo).
Essa transmutação, ou comprometimento familiar com os Bororo ocorreu em agosto de 1981, quando notificado pelo xamã Kadagári que participaria da cerimônia da nominação e se quisesse faria o ipáre en-ógwa porodódu (perfuração do lábio inferior) cerimônia que ocorre logo após o nascimento. No dia estabelecido minha muga depilou-me quase completamente (cílios, sobrancelhas, pubianos) e pintou-me com pasta de nonógo (urucu) e esparramou no meu corpo kidaguru (resina cheirosa de almíscar) e fez colagem de plumas alvíssimas de pato selvagem. No meri butu (pôr do sol) recebi o nome de Merireu Merikajujeu, privativo do clã dos Baado Jeba.
Nessa noite, na casa destinada à cerimônia de minha nominação, tive que permanecer sentado numa esteira e acordado até o raiar do dia, exigência dos bari para impedir que eu dormisse e tivesse sonhos de agouros negativos . Uma seqüência de mestres de canto, percutiam ininterruptamente seus bapos kurireu (grandes chocalhos globulares) e entoavam os róias (cantos) correspondente à cerimônia e só terminando no meri rutu (nas primeiras horas da aurora), no woróro (pátio central da aldeia) quando meus nomes seriam proclamados. Essa circunstância me fez Bororo e os Bororo também tem essa mesma consideração pela minha nova identidade.
Em 2005, morre minha muga, nonagenária e consciente. Com minha família Terena participamos dos seus ritos funerários, fato que deixou um vazio na minha existência como Bororo. Talvez, ainda, sugestionado pela intensa percussão dos bapos kurireu, que vez por outra ainda ouço, mesmo tendo ocorrido há 25 anos. Também, apesar da raridade do fato, tenho sonhos de xamã, sonhos que levava para os aróe et-awára are e para os Bari (xamã dos espíritos) que cautelosamente ouviam e prediziam ou diziam “não é nada”, ou “isso é um aviso”.
Neste agosto de 2006, vivi um outro “sonho xamânico”, sonho de índio, sonho
de Bororo.
“Vi os espíritos criadores, adormecidos, depois da cosmurgia do novo tempo. Debruçados, espreitavam pela fresta do grande nevoeiro de suas criações. Satisfeitos, punhos cerrados, bradaram, “ficou bom”. Mas, estupefatos, viram escapulir pelos vãos dos dedos primidos, centenas, milhares de seres humanos, que atabalhoados despencavam na lama placentária esparramada pela terra.
Os espíritos perguntavam, onde foi que falhamos e o que faremos com esses novos seres? Tão diferentes entre si e manchados do vermelho do sangue da criação e que esparramavam suas pegadas por esse mundo desconhecido.
Então uma grande obra começou a ser moldada. Novas plantas, como o urucu, com seu vermelho encarnado que substituiria o sangue placentário dos corpos dos novos seres ou do jenipapo com seu negro-azulado substituiria o preto do coágulo sanguíneo. Assim, os espíritos moldavam essa ordem emergencial, ensinando aos homens desse novo canto do mundo, um pouco dos seus conhecimentos. O tempo rodava, e nomes foram emprestados a esses homens, cada qual detinha um pouco dos saberes dos espíritos. Eram Guaikuru, Guarani, Chané, Xaray, Chiriguano, Guachi, Payaguá, Guató, Caracará, Guacharapó, Surucunha, Tembez. Aravira, Araparis, Itaporis, Caypanes, Yorauvariba, Elives, Cuchicanes, Porrudos, Cuiabás, Curcanez, Tuetez, Cochipone, Arica, Poçonez, Puponez, Araripoçonez e os Bororo, que a todo custo ocupavam um dos cantos desse mundo. Mundo espremido pela Cordilheira Andina e pelo Planalto Central no sentido Leste-Oeste. No Norte, uma grande abertura vazia e desconhecida, no Sul outro imenso espaço aberto, mas, todas marcadas pelas pegadas desses novos seres.
Findo esses épicos trabalhos, os espíritos satisfeitos, choraram e suas lágrimas inundaram parte dessa terra, formando lagos e rios. Vez por outra, saudosos, debruçam na janela do tempo e choram de felicidade devido a essa criação inusitada. Essas lágrimas esporádicas, que caem sobre esse novo mundo, fazem os rios transbordarem rompendo a proteção das terras altas. Então os espíritos disseram, “vai ser sempre assim, vez por outras as águas subirão para nutrir a terra e alegrar os homens, isso se eles souberem respeitar o ciclo natural da vida”.
O tempo passou e os espíritos, talvez ocupados com outras cosmurgia, deixaram os homens sozinhos neste mundo, mundo, hoje chamado de Chaco-Pantanal.
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Mas os Bororo, um dos povos despencado do punho “premido” e ofensores de um desses espíritos, o Jakomea Pô, foi duramente castigado por uma grande inundação que destruiu todas as suas aldeias e seus habitantes. Merire Póro, único sobrevivente dessa catástrofe aquática, refugiou-se no alto do morro Toroári (morro de Santo Antonio, localizado próximo de Cuiabá, capital de MT) e com fogo de um braseiro provocou a evaporação das águas. Desceu e encontrou com uma pobógo (guacuetê - Mazama americana), também sobrevivente da fúria dessa inundação, com a qual manteve relações sexuais da qual tiveram vários filhos, no começo metade homem e metade animal e por fim nasceram seres humanos perfeitos e com eles repovoaram a terra e construíram centenas de aldeias.
Nesse novo mundo, os espíritos ausentes da terra, moravam, de acordo com a cosmurgia Bororo, nos três céus: Báru Kaworuréu (o céu azul)onde mora o pai dos espíritos, Báru Kigaduréu ( o céu branco), onde moram os espíritos maus e o Báru Kujaguréu (o céu vermelho) e onde moram os bons espíritos.
Com a finitude do tempo, veio a grande saudade desses seres, nem mesmo os espíritos Meri e Ari, gêmeos que desceram de um dos céus e conviveram longo tempo com os Bororo e posteriormente foram expulsos por eles, não aplacou essa grande saudade.
Então, os Bororo decidiram fazer um grande itaga (ritual funerário), onde os espíritos dos mortos Bororo, que habitam os reinos de Bakororo (Oeste) ou de Itubóre (Leste) e todos os outros Aróe (espíritos) pudessem ser lembrados. No transcorrer dessas cerimônias os Bororo elegem o “AROE MAIWU, os que dançam para os espíritos”, que é o elo de ligação entre esses espíritos e os homens.

UM POUCO DOS BORORO

Os índios Bororo, povo pertencente ao Tronco Lingüístico Macro-Jê, habitavam a região central da América do Sul quando as bandeiras paulista preadoras de índios subiram o rio Cuiabá em 1718. Antes desse contato, ocupavam uma área de aproximadamente 400.000 Km²,
Hoje, vivem em Reservas demarcadas pelo governo, com solos pobres e insuficientes matérias-primas. Bororo, como caçador e coletor/agricultor adaptaram-se e se especializaram como um grupo tipicamente do cerrado, mas essa limitação de espaço e as ameaças vindas da sociedade envolvente têm colocado em risco o módus vivendi desse povo.
A aldeia Bororo é circular e com um diâmetro de 100 metros aproximadamente. Dois eixos, um Norte–Sul e outro Leste–Oeste dividem a aldeia em quatro partes. O eixo Norte-Sul passa próximo do Baito (casa situada no perímetro da área central da aldeia) ao meio, no seu eixo maior. O eixo Leste-Oeste corta também o Baito no seu eixo menor e divide as duas metades com seus respectivos clãs, sendo quatro para cada metade. A metade do grupo Echerae ocupa o lado norte e a dos Tugarege a parte sul. No lado Leste há um pequeno pátio chamado Woróro, onde ocorrem algumas cerimônias como da nominação, no lado Oeste, está o grande pátio chamado também de Wóróro ou Bororo que na realidade é o centro da aldeia onde são inumados e exumados os corpos dos seus mortos durante seu majestoso funeral. Também ocorrem outras cerimônias ligadas ou não ao rito funerário.
A hereditariedade é matrilinear e exógoma. Os homens da metade Echerae, casam com as mulheres da metade Tugarege e vice-versa. Os Echerae dividem-se em quatro clãs sendo: Baado Jebage do leste e do oeste que são os construtores da aldeia e de onde saem os chefes; Bokodóri Echerae são os tatus-canastra; Kie são as antas. Os Tugarege também se dividem em quatro, sendo: Paiwoe são os bugios; Apiborege são donos do acuri, (também humanos); Aroroe são as larvas; Iwagudu-Doge são as gralhas. Os clãs das duas metades subdividem em clãs menores e no circulo da aldeia podem construir suas casas ao lado ou atrás do clã principal.
A divisão dos trabalhos, como da caçada, são masculinas, mas não é proibitória para as mulheres, assim como as atividades de coleta que é feminina pode também ser exercida pelos homens. Várias atividades cotidianas como a produção de alguns utensílios e implementos ou cerimoniais que dependiam da totalidade do território Bororo estão desaparecendo devido esssas matérias primas ficaram fora das áreas demarcadas para seus usos.

A Ecologia da Selva

O desaparecimento da constelação das Plêiades, Akiri Dóge para os Bororo, no final do mês de abril e o seu aparecimento no início de setembro vem regular profundamente o sistema de vida dos Bororo. Com o fim do Maguru (atividade onde toda aldeia participava de uma grande perambulação por vários nichos ecológicos do seu extenso território), motivado pela diminuição das reservas e das intransigentes administrações das fazendas que hoje ocupam terras tradicionais Bororo. Agora essa atividade se limita a seguir dois ciclos anuais bem definidos, sendo: Jóru Bútu que significa a queda do fogo que é o período do inverno seco (maio/setembro), e Butáo Bútu que é a queda da água ou verão das águas (outubro/abril).
Assim as Plêiades não é só o regulador da vida Bororo, ela está associada com a
própria vida do pantanal. Seca e chuva determina também a migração da fauna, frutificação de variadas espécies vegetais e condições de operacionar a vida agrícola.

Jóru Bútu (Desaparecimento das Plêiades - final do mês de abril e começo de maio)

Nesse período a aldeia está preparando para sair para o Maguru. O Bari cantou a noite toda no Baito, os designo são favoráveis e as atividades da época da seca será profícua. As rotas já foram determinadas pelos chefes, como indicado nos cantos propiciatórios. Com os apetrechos organizados a aldeia se movimentava para as áreas de boas caças, pescas e coletas. Nesses locais aldeias são construídas, seguindo os moldes das aldeias sede, mas as casas não têm um acabamento esmerado. Nas regiões visitadas algumas espécies do cerrado estão frutificando, como: o cumaru, jatobá, mangaba, babaçu, carás e outros tubérculos, assim como as resinas, cascas, embiras, taquaras e uma variedade de outras matérias primas seriam coletadas. O mel também era colhido. Nas baías, com os represamentos das águas, centenas de peixes ficam prisioneiros e isso propicia a migração de algumas espécies de aves para esses nichos. Abatidas pelos Bororo, essas aves serviam para consumo alimentar e no aproveitamento de suas penas, plumas, bicos e peles. Também animais de pêlo, excetuando os proibitivos, eram também caçados. As pescarias desse período era as mais movimentadas, tanto pelo costume dos Bororo de se nutrirem preferencialmente de peixes, como pela plasticidade dessas ações. Adotavam diversas táticas para cercar os peixes. Usavam os búke, redes de pesca feitas de fios de tucum e diversos tipos de anzóis fabricados de vegetais espinhosos para pequenos peixes e para os grandes eram feitos da parte dura das extremidades de grandes caramujos, depois do contato passaram adotar os anzóis de metais.
No final de agosto-setembro começavam as atividades agrícolas, roçada, derrubada e queimada. As Plêiades já estavam no horizonte Leste.

O Butáo Bútu (Aparecimento das Plêiades - mês de agosto/ setembro)

Os Bororo já estão na aldeia, realizam algumas cerimônias, começam o plantio do milho, de cabaças, do algodão, e de alguns tubérculos. Coletam frutos das palmeiras, do piqui e de outros produtos encontrados facilmente nas proximidades da aldeia, construídas visando essas facilidades e as caçadas são realizadas nas terras altas. Com a chegada das “grandes águas” algumas espécies refugiam-se nessas áreas, mudando o eixo da atividade dos caçadores Bororo.
Também é no final desse período que ocorrem algumas colheitas como a do milho que com a caça - respeitando os animais que são tabus ou propiciatórias - e com as pescarias realizadas de acordo com o ritmo das enchentes dos rios os Bororo complementa suas necessidades alimentares. Salientamos que os Bororo não fabricam o beiju, mas produzem diversos tipos de bebidas fermentadas principalmente extraídas das palmeiras.
No final de março as Plêiades está no horizonte-Oeste, é o fim de um ciclo. Piúvas florescem e demarcam um novo momento do mundo Bororo.

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O ARÓE MAÍWU - A DANÇA PARA OS ESPÍRITOS

Das diversas manifestações culturais dos Bororo, o funeral é a cerimônia mais significativa. Nele, utilizam o processo do enterro secundário, caracterizado com a inumação do corpo no Woróro (pátio localizado na área central da aldeia) numa cova rasa, onde o corpo enrolado numa esteira fica suspenso numa forquilha a alguns palmos do seu fundo e que possibilite que parte do corpo em decomposição, provocado pelas ações das águas aplicadas pelos índios semanalmente e vez por outra utilizando de uma vareta para possibilitar que a parte mole desagregue dos ossos mais rapidamente.
Depois de aproximadamente 45 dias, vendo que os ossos estão quase praticamente livres das partes moles exumam os ossos que são lavados numa lagoa próxima da aldeia.
No Baito, depois de variadas cerimônias, o crânio é adornado com plumas de arara coladas minuciosamente com resinas cheirosas e os ossos do corpo são empastados com urucu. Com a morte do índio, seus parentes maternos, buscam na metade oposta o representante do morto que é o Aróe Maíwu. Depois de escolhido, besuntado com o vermelho da pasta do urucu, apossa das armas do morto (ser assexuado), e dirigido pelo Bari, vão para o centro do pátio e busca no Leste ou no Oeste o espírito do morto. Dançam e dão gritos apropriados para a cerimônia. Depois, o Bari, chama o espírito do morto e faz sua apresentação ao Aróe Maíwu usando seu verdadeiro nome. Impronunciável até então.
Findo essa cerimônia, dois Baado Jebage, um vindo do Leste e outro do Oeste, se encontram no pátio e dançam com o Aróe Maíwu. No meio dia, do penúltimo dia do funeral o Aróe Maíwu e seu cortejo, vão para o Baito e recebem inúmeros enfeites e se adorna para não ser reconhecidos pelas mulheres e para os que ainda não podem lidar com a morte. Seu tronco e rosto recebem cobertura de resinas cheirosas e nelas são coladas plumas negras de mutum ou de outras aves. Da cintura para baixo ostenta o “toro” uma longa saia de palhas de babaçu. Outras folhas e um magnífico pariko adorna sua cabeça, o uso das esplendidas viseiras são aconselhadas. Enquanto se paramenta o Aróe Maíwu não para um só momento, de joelhos ou em pé executa suaves ou enérgicos passos de sua dança para se preparar e tirar as “coisas ruins do corpo”.
Os Bororo cantam o Jokuréga e o Aróe Maíwu é levado para o centro do Baito, todo paramentado, conforme a tradição Bororo. Sentado o Aróe Maíwu, ouve a recitação do canto Jokuréga. Depois, vários cantores acompanhados de um chocalho cantam o mesmo canto. Nisso o Aróe Maíwu portando a Cesta Mortuária realiza a dança apropriada para esse momento, dando saltos e depois, coloca a cesta no centro do Baito. Um instrumento musical de sopro chamado powári-dóge aróe e que representa todos os mortos da aldeia e é confeccionado pelas mulheres enlutadas é entregue ao Aróe Maíwu. Cada instrumento tem uma sonoridade diferente e um parente próximo do morto ensina-o a tocá-lo e todos os parentes de antigos mortos, reconhecem seus antepassados pelo som do powári. Depois do funeral ele será devolvido a família, mas, sempre será utilizado pelo seu representante nas grandes caçadas e nos próximos funerais.
No último dia, no período da tarde, a cesta mortuária que estava na casa dos enlutados é levada para o Baito. Na porta do Baito o Aróe Maíwu recebe-a, ao som do canto Marenarúie e com passos curtos de vaivém, fazendo isso várias vezes, e inesperadamente arranca a cesta da mão do portador. Mais tranqüilo o Aróe Maíwu executa outra dança e deposita a cesta, ainda vazia, encostada no esteio central do Baito, com sua parte ornada voltada para o lado Leste, visto que os cantores executam os cantos voltados para o lado Oeste e defronte do esteio central e do Aróe J’Áro. Os dançarinos também executam suas coreografias ao redor do esteio central ou em torno dos cantores agachados.
Depois, sempre acompanhados por belos cantos, todos o acompanha, pois ele carrega o cesto mortuário para a praça central e executa outras danças e repentinamente corre ao redor do pátio. Há casos de haver outro Aróe Maíwu no mesmo funeral, este fica como reserva caso ocorra um imprevisto com o representante oficial. Também quando há casos de dois ou três mortos haverá vários Aróe Maíwu, principalmente quando da realização de um funeral e ocorrer uma outra morte, as cerimônias do primeiro óbito são suspensas e os dois mortos compartilham as mesmas cerimônias, seguindo os costumes de cada metade e clã. Num dado momento um índio, segura firmemente um dos fios da saia do Aróe Maíwu e sempre correndo arrasta-o para uma pequena clareira fora da aldeia, o Aije Muga.
Nesse momento soam os zunidores, são os Aije atormentando as mulheres e as crianças, pois representam espíritos maus que habitam as águas pútridas e que devoravam os corpos do Bororo antes da socialização dos rituais funerários. Nesse local jovens iniciados sofrem as provações da passagem para uma outra classe social. No Aije Muga, passa por várias provações para aprenderem a sentir dor e ter novas responsabilidades, entre elas a de também contrair casamentos. Esses grupos de rapazes, nesse momento, também recebem o estojo peniano. Depois do final das representações dos Aije (zunidores) o Aróe Maíwu, despe-se cuidadosamente dos seus paramentos, limpo, esse personagem se acomoda na cabeceira do túmulo e assiste o ato final dos Aije.
Depois, já no final da tarde, minutos antes do por do sol o Aróe Maíwu e outros homens queimam os pertences do morto e em seguida todos nus são lavados cuidadosamente para se purificarem. Banhados, os homens batem ruidosamente suas esteiras no chão do pátio e todas as mulheres e crianças saem de suas casas. Algumas trazem alimentos para os homens Bororo e para todos os presentes. Seria muito ofensivo alguém recusar tal reverência, mesmo não sendo Bororo ou índio.
Cabe também ao Aróe Maíwu fazer a inumação definitiva. O representante do morto com um tição na mão espera a cesta mortuária fora da aldeia, enquanto os parentes cantam o “marenaruie” e depois passam o cesto para o representante que o transporta até a lagoa cemitério, onde será submergida. O Bari fica ainda algum tempo na lagoa para conversar com os espíritos do reino dos mortos.
Posteriormente o representante do morto é tratado pelos enlutados como um parente, que se sacrifica pela família e é digno de ser bem alimentado e receber os melhores brindes. Essa reverencia vai acompanhá-lo pelo resto de sua vida. No momento das caçadas ritualísticas, antes das partidas, quando os caçadores são alimentados, esses Aróe Maíwu são sempre agraciados pelos familiares dos mortos que eles representaram.
Assim passado esses momentos de introjeção, o cotidiano de uma aldeia Bororo retoma a normalidade. Os meninos sofreram numa batalha desigual contra o Aije, esse
monstro terrível que devorava os corpos dos mortos. Vitoriosos saíram homens, portando estojos penianos e na plenitude de assumir as responsabilidades de um “ser Bororo”, senhores de milênios de história. E os Aróe Maíwu recebem significativas oferendas dos parentes dos mortos que é o Aé, cordão feito dos cabelos das mulheres enlutadas, que poderá ser amarrado na cabeça ou nos braços para protegê-los das armas mortais dos inimigos ou dos dentes e das garras das feras apossados por um Bope que ele terá a incumbência de abater para vingar o morto. Só assim, o Móri, o ritual da vingança e do agradecimento, poderá ser realizado. Por fim, “O Aróe Maíwu dançou para os espíritos”.

2 comments:

Denize said...

Mi, do céu!!!!
Você há tempos já está atenada com os bororos!!!! Grande,só agora li e conheci o blog do Merireu por você!! Muito bom, riquíssimas informações, preciosas! Parabéns!!!! Beijos,

Denize said...

Mi, Está ótimo seu blog! To pesquisando sobre mitologia e os textos estão maravilhosos!!!!!