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Monday, 15 July 2013

Somos Anonymous

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/40027-somos-anonymous

Somos Anonymous


Uma legião de ciberativistas se mobiliza na rede. Se fazem chamar Anonymous e dizem lutar pela transparência, liberdade de expressão e direitos humanos. Não mostram a cara, nem têm líderes. Na semana passada, tomaram as páginas eletrônicas oficiais de Túnis, depois da autoimolação de um jovem, Faz um mês, atacaram as empresas que cortaram a torneira ao Wikileaks. É um movimento germinal, fortemente libertário e de contornos confusos, Esse é seu retrato.
A reportagem é de Joseba Elola, publicada no jornal El País, 16-01-2011. A tradução é de Anne Ledur.
Este é seu lema: "Somos uma legião, não perdoamos, não esquecemos, espera por nós. Anonymous." Assim é como esse movimento sem líderes e sem porta-vozes, com voz, mas sem cara, fecham seus anúncios e comunicados. Ou melhor com máscara: a máscara do anarquista revolucionário de V, de Vendetta, o romance gráfico de Alan Moore, que inspirou o filme protagonizado por Natalie Portman e Hugo Weaving, em 2006. A máscara se converteu em símbolo de um movimento ciberativista que não vem com pretextos.
Na semana passada, derrubaram as páginas oficiais de Túnis, depois da imolação de um jovem de 26 anos. No dia 10, tomaram a página do partido irlandês Fine Gael. Atacaram à SGAE e partidos políticos espanhóis ao fio da lei antidescargas. E, há um mês, botaram as mãos na VisaMastercardPayPal e Amazon, as empresas que deram as costas ao Wikileaks.
Os Anonymous estão em seu momento. Sua gente está motivada. A perseguição ao Wikileaks era o incentivo que necessitavam. Não vão parar.
Woolwich, a 45 minutos do centro de Londres, exteriores da Real Corte de Justiça. Acaba de comparecer JulianAssange, fundador do Wikileaks. É terça-feira, 11 de janeiro, e cerca de trinta ativistas se manifestaram em apoio a seu grande inspirador, seu novo herói. Entre eles, Magnonymous, um jovem de 22 anos, que esconde seu rosto por detrás da máscara de V, de Vendetta. "Nos oporemos a qualquer violação dos direitos humanos. Nos oporemos a qualquer ataque do governo. Se isso seguir assim, a revolução será a única opção."
Magnonymous é mais um, não é porta-voz de ninguém, menos ainda de um movimento que não quer porta-vozes, como se apressam a dizer todos os membros do Anonymous quando falam com um jornalista. Pediu a seu chefe o dia livre para vir se manifestar nesse distante julgamento, na corte a quem trazem casos em que é preciso manter a imprensa e o público longe, no lugar onde foram julgados os terroristas dos atentados de Londres de 2005. "Não somos membros de nenhum grupo político, não somos políticos, somos ativistas. Me ofenderia se me atribuíssem a qualquer corrente política".
Entender o universo Anonymous não é coisa fácil, o fenômeno é o perfeito reflexo do novo mundo em que vivemos, da nova sociedade que está nascendo à raiz da revolução digital. Tudo aponta que seus membros consideram mais que superada a velha dialética esquerda-direita. Que governem centro-esquerda ou centro-direita, todos vão fazer o mesmo, todos vão estar a serviço dos grandes bancos e das grandes empresas, todos vão seguir tentando controlar a barraquinha de negócios.
Pois bem, aqui há uma legião de jovens que não querem que se oculte que o encanamento da barraquinha não deságua bem; não querem que se oculte que há vários na barraquinha que metem a mão no caixa; não querem que se oculte que quiseram tapar a boca de um dissidente da gestão da barraquinha. Não querem que se oculte nada. A nova dialética: estar a favor do ocultamento ou da transparência. Um dos dois.
Este movimento global, transnacional, transversal, também é difícil de entender porque foi gerado na rede, com as inércias próprias da internet. É produto do momento, da interação, da necessidade de mobilizar-se em um mundo cínico, corrupto e injusto. Foi tecido de forma orgânica, conversa sobre conversa, ideia sobre ideia, proposta sobre proposta. Qualquer um pode ser parte do Anonymous, qualquer um pode entrar quando quiser e somar-se à conversa em páginas como whyweprotest.net. Entrará em um mundo em que as pessoas vão se pondo progressivamente de acordo sobre uma ideia, até que uma sorte de consenso espontâneo indica qual é o seguinte objetivo, contra quem tem que lançar o próximo ataque. Algum jornal, como o The Guardian, sustentou que estão mais coordenados do que eles mesmos creem.
Nem todos os membros de Anonymous são hackers, não. Os hackers são uma grande minoria do coletivo. A maioria são ciberativistas que participam na conversa online e, ocasionalmente, nos protestos de rua. Cerca de mil integrantes, segundo a especialista Gabriella Coleman, são os que põem seus computadores a serviço dos ataques contra páginas eletrônicas, os que descarregam o dispositivo que permite que seu computador, dominado, possa ser parte dos chamados DDoS, ataques distribuídos de recusa de serviço.
Os DDoS são a arma que os ciberativistas têm mais à mão. Permitem realizar operações que conseguem um considerável eco midiático e que afetam a imagem da marca contra quem se dirigem. Consistem em mandar simultaneamente, orquestradamente, milhares de petições a um servidor para que se derrube. Assim ocorreu no último dia 8 de dezembro. Nessa data, a Mastercard decidiu cortar "a torneira" do Wikileaks. Quem quisesse fazer uma doação à plataforma de Assange não poderia fazê-lo através de um cartão dessa companhia. A decisão desencadeou o ataque. "Registramos o que chamamos de um `super heavy traffic`", declara em conversa telefônica Cristina Feliú, porta-voz de Mastercard paraEspanha e Portugal. "Isso significa que quem entrou na nossa página notou que funcionava com maior lentidão". Mas não se produziu, segundo disse, nenhum problema nas operações de seus clientes com cartões, nem nenhum tipo de fraude. "No dia seguinte, já tínhamos recuperado o ritmo". Da Visa, declinaram em fazer algum comentário e enviaram os comunicados que afirmavam que os ataques não afetaram suas operações.
Evidentemente, esse grande coletivo, cujo número de membros e simpatizantes é difícil de estimar (os membros consultados falam de dezenas de milhares), tem hackers. E, de fato, o FBI está atrás de seus passos. Um jovem holandês de 16 anos foi preso em sua casa, em La Haya, pouco depois dos ataques. Admitiu que havia participado deles e foi posto à disposição judicial. "Admitir que participou não é muito inteligente", explica Philter, estudante de 19 anos e membro do Anonymous. "O menino tinha 16 anos e se assustou, era bastante inexperiente, não tomou as precauções suficientes".
Falar com as pessoas do Anonymous não é fácil. Desconfiam dos jornalistas, de que suas comunicações estejam interceptadas. Não veem com muito bons olhos os meios de comunicação tradicionais: do seu ponto de vista, ajudam que se mantenha o status quo. O fato de um jornal como o El País e o The Guardian terem participado da difusão dos documentos do Wikileaks supuseram, explica Hamster, um informático londrino de 26 anos, um adicional de credibilidade para meios até agora pouco apreciados.
Na semana passada, nos colocamos em contato com membros do Anonymous na Espanha. Esclarecendo, como sempre, que eles não respondiam na qualidade de porta-vozes de ninguém, já que o movimento não tem porta-vozes, e eles declinaram em realizar uma entrevista telefônica ou pessoalmente. Qualquer um que tente se destacar um pouco mais entre os Anonymous é automaticamente rechaçado pelo resto da comunidade. Assim ocorreu em dezembro, em Londres, com Coldblood, um anonymous que deu a cara à mídia nos dias do processo de Assange. "Coldblood foi condenado ao ostracismo", confirma Hamster, membro do Anonymous desde 2008.
Não obstante, os membros do Anonymous Espanha, que há semanas enviam comunicados a certos meios de comunicação atualizando a informação em torno às distintas operações de ataque, ofereceram a possibilidade de que lhes enviássemos um questionário, ao que responderiam de modo consentido.

Responderam três administradores do canal #hispano, enquadrados em idades entre os 17 e 32 anos, segundo disseram. Suas respostas, desde logo, encaixam perfeitamente com o discurso que mantêm os membros desse movimento de consciência online consultados até a dada e com o tipo das páginas que participam. É interessante reproduzir aqui as respostas dessa célula de Anonymous para esclarecer certas dúvidas. Não são porta-vozes de nada. Mas suas palavras servem para refletir o sentir dessa comunidade.
Se pode dar alguma estimativa de quanta gente na Espanha pertence ao Anonymous? E quanta em nível internacional?
Seria impossível dar números, e essa é a graça do Anonymous. Para começar,  tem que lembrar que é uma organização que não existe e, por sua definição, é uma (des)organização. Anonymous não é ninguém e pode ser qualquer um. Mantendo as distâncias, é como uma organização insurgente baseada em células, compartilhamos uma marca, mas somos gente independente, que responde ao uma ideologia comum e que participa de cada ação particular de acordo com se coincide ou não com suas convicções.
Tendo o anterior em conta e es especificamente na Espanha, se tivesse que dar um número, creio que estaríamos falando de 1000 e 2000 pessoas, que vão de diversos níveis de compromisso. Desde uma maioria, que seriam os que apoiam nossas iniciativas no TwitterFacebook, etc.; até os mais comprometidos, que seria algo mais que uma centena, os que participam saindo às ruas com ações mais reais como, por exemplo, a operação Paperstorm (distribuição de folhetos, fôlderes, pichações, etc.) ou as concentrações da Operação Demonstração (concentrações na Espanha a favor do Wikileaks e contra a lei Sinde). Em nível internacional, extrapolando, falaríamos possivelmente de dezenas de milhares.
Desses, quantos participam nos ataques DDoS?
Aqui sim podemos dar números mais exatos. Nos ataques de 20 de dezembro, contra a lei Sinde, contávamos com quase 500 usuários conectados na Colmena, que é o sistema de comando e controle da ferramenta de DDoS LOIC que permite que todos os anonymous ataquem ao mesmo tempo a um mesmo objetivo. Esse número, não obstante, poderia ser mais alto, pois teria que adicionar as pessoas que atacavam manualmente do Linux.
Alguma iniciativa nas ações do Anonymous teve sua origem nas conversas do Anonymous Espanha?
Realmente não se pode diferenciar entre Anonymous de tal ou qual país. Quando se propõe uma operação, se essa é repetida, recebe apoios de todo o planeta; houve apoios à nossa luta contra a lei Sinde em dezembro e esperamos mais no futuro. Prova disso é essa convocatória redigida em mais de 15 idiomas, em que participaram anonymous de todo o mundo, na que se faz um chamamento a todos os anonymous a apoiar os protestos virtuais contra a lei Sinde.
Em que fóruns ou páginas eletrônicas se movem?
Nosso principal ponto de união não é uma página ou um fórum, mas uma rede de chat chamada IRC, nós chamamos deIRC Anonops. Aqui, nos reunimos em diversos canais de discussões como #operationpaybak ou #hispano, este último, o que aglutina, aos anonymous espanhóis; daí se põem em comum e se propõem estratégias. As que são repetidas logo, vão se distribuindo na rede por blogs e páginas anonymous. Basta chegar aos Twitter e Facebook individuais de anonymous. É uma estrutura perfeitamente organizada que, contudo, não tem líderes, nem uma fonte inicial.
O que diriam às pessoas que dizem que são hackers?
A maior parte dos anonymous não são hackers, no sentido clássico da palavra. São usuários da internet como qualquer um, só que com uma motivação para o ativismo digital. O que, sim, é certo, é que contamos com hackers em nossas linhas, por exemplo, as pessoas que administram os servidores do IRC e o resto das redes de comunicação criptografadas, ou os que programam LOIC (Low Orbit Ion Cannon), aplicação para realizar provas de resistência a uma rede informática) e as ferramentas de ataques. Está aqui a grandeza do Anonymous, só faz falta um gênio informático para programar a ferramenta, e quando essa ferramenta passar a ser usada por milhares de pessoas anônimas, mesmo que sejam especialistas, para efeitos práticos, é como contar com um ciberexército de milhares de hackers que podem inutilizar qualquer rede ou sistema se se propuserem.
Quais são os princípios básicos do seu ideário?
São poucos e terrivelmente simples. O que permite unificar a maior quantidade de gente possível. Anonimato absoluto, o que supõe, entre outras coisas, a ausência total de líderes e cabeças visíveis no nosso movimento; a luta contra a corrupção nos governos ou em qualquer estrutura de poder; a defesa incondicional da liberdade na internet.
Existe perigo que alguém de dentro tente manipular suas operações?
Seria impossível. Cada anonymous atua de forma individual. Ele mesmo decide se faz ou não parte de uma operação de forma totalmente independente do resto. Se pensar nas organizações reivindicativas do século XX, sempre correram o risco de que um toupeira se infiltrasse e, com o tempo, chegasse a tomar parte da cúpula para desbaratar a organização de dentro; isso seria impossível com o Anonymous, pois não existem líderes, nem segue uma hierarquia formal. Contudo, sabemos que existem agressões externas contra o Anonymous, como a investigação do FBI aberta por conta dos ataques DDoS à Mastercard e PayPal, ou sofisticados ataques informáticos que temos sofrido e suspeitamos que provêm de serviços de inteligência ocidentais. Felizmente, nesses casos, a natureza descentralizada do Anonymous também faz impossível qualquer ingerência externa.
Quais são as preocupações atuais do Anonymous?
O importante, a verdadeira preocupação, é seguir lutando pelos princípios do nosso ideário, e, em função disso, estamos trabalhando em várias operações. Está em andamento a publicidade da fase 2 da Operação Sinde, que consistirá em diversas ações de protesto em torno do dia 18 de janeiro, em que termina o prazo de emendas da dita lei.
Em nível mundial, está em andamento a Operação Tunísia, em apoio aos manifestantes contra o regime tunisiano: realizaram ataques DDoS contra diversos sítios oficiais e também se elaborou um kit de ajuda informático com programas de criptografia e comunicações para os dissidentes tunisianos. Em relação ao futuro, estamos preparando a Operação Quicksilver, que, se tiver êxito, vai comover a internet, mas os detalhes, por sua própria natureza, são secretos no momento.
O movimento Anonymous vai a caminho de transcender o caso Assange e o episódio Wikileaks. A perseguição do fundador da página de filtrações, que recentemente despiu a diplomacia norte-americana e destapou manobras, confusões e corrupção nas quatro esquinas do planeta, tem sido um detonador. Wikileaks representa como poucas organizações os valores nos que creem os anonymous: transparência, direitos humanos, liberdade de expressão. A página  destapa segredos: se tem algo a atribuir a um anonymous, é divulgar segredos de organizações poderosas de colocá-los à disposição do público. Assim, Assange se converteu em um símbolo para os integrantes dessa comunidade.
Wikileaks negou em todo momento estar por detrás das operações do Anonymous. Seu número dois, KristinnKranfsson, contava há um mês no centro da organização em Londres. "Nem fomentamos que se faça, nem temos contato com as pessoas que estão fazendo, mas também não os condenamos", contava, com cigarro na boca, esse jornalista investigativo islandês enrolado no cerco de Assange.
Uma boa parte dos anonymous se aglutina em torno da página whyweprotest.net. Hamster se conecta com o seu iPad a esse espaço em que os membros da comunidade trocam ideias e iniciativas. Esse jovem informático conta que o canal 4chan esteve na origem do movimento, mas que a ação agora se situa em whyweprotest. Qualquer um pode entrar e preservar o seu anonimato. Isso é bom. As pessoas se centralizam no que dizem aos demais, e  e não em quem o disse".
Hamster sorve seu café com caramelo em um café central na Oxford Street. Seu iPad está aberto na mesa, está continuamente checando-o, responde as perguntas, mas seu olhar vai constantemente para a tela. Mostra uma foto de um quarto de sua casa: um computador, quatro telas. "Assim podes estar atento a várias coisas ao mesmo tempo", diz, e solta um sorriso entrecortado.
Conta que tem mais de 33.000 pessoas registradas no whyweprotest. A grande maioria, membros do Anonymous ou simpatizantes da causa. "Os mais agressivos são as pessoas do Anonops. Eu sou menos agressivo". Dentro do Anonymous, há detratores dos ataques DDoS. "Creio que esses ataques nos desacreditam", afirma Magnonymous. "Vão utilizá-los para nos criminalizar e para gerar propaganda negativa sobre nós". Magnonymous tem claro: "Não devemos usar a violência em nenhum caso. Qualquer membro que propuser utilizar a violência seria rechaçado pelo grupo". Tem outro espaço em que também se movem os membros do coletivo: whywefight.net, o blog informativo dos "soldados da ciberguerra".
Hamster se uniu a Anonymous em princípios de 2008. Conta que o fez a pouco de abandonar a Igreja da Cientologia. "Me dei conta que não me ajudavam em nada. O único que fazem é te converter em um idiota e te manipular". Afirma que abandonou a Cientologia internamente, mas que não de fato. Cona que segue indo duas vezes por semana e que tenta tirar documentação para colocá-la à disposição do Anonymous. "Honestamente, às vezes me dá um medo horrível. Se me descobrissem, transformariam a minha vida em um inferno."
A Igreja da Cientologia é um dos grandes inimigos do Anonynous. A luta contra essa seita foi a primeira que uniu a todos esses ciberativistas em 2008, e seguem as mesmas. Uma luta que, na realidade, começou em meados dos noventa, mas que tomou corpo em 2008. Os anonymous não gostam de pseudociência, nem das religiões em geral. Sustentam que a tecnologia deve servir para expandir o conhecimento, não para controlar as mentes.
Como explica a professora Gabliella Coleman - antropóloga da Universidade de Nova Iorque, especializada no mundo hacker e estudiosa do fenômeno Anonymous - a Igreja da Cientologia é a perfeita antítese do Anonymous, o fenômeno inverso: obscurantismo, ocultamento, censura.
Descobrir os segredos de uma organização secreta, de uma organização religiosa com marca registrada, sustenta, se converteu no primeiro grande desafio do Anonymous. Em fevereiro de 2008, os membros que se reuniam na rede trasladaram seus protestos de suas casas às ruas, à "vida real". Houve manifestações em LondresAmsterdãBerlim,Sidney. "Foi quando mais gente do Anonymous foi vista na rua", reconhece Hamster.
PayPal. Visa. Mastercard. Amazon. PostFinance. A página da promotoria sueca, a do partido irlandês Fine Gael, as do regime tunisiano. Não há fronteiras para o Anonymous. A luta contra a cientologia os uniu. A luta pelo Wikileaks os reuniu de novo. Qualquer ataque aos direitos humanos, qualquer tentativa de censura, se produza onde se produza, será castigada por eles com as armas que têm a seu alcance. "Se tivesse uma revolução", diz Hamster, "a internet nos proporcionaria a tecnologia".
Operações recentes
6 e 7 de dezembro de 2010. Operação Payback (Vingança): Ataques DDoS contra  Paypal, Mastercard, PostFinance, Amazon e Visa. As páginas da promotoria sueca e do advogado das mulheres que apresentaram cargos contra Assange também foram atacadas.
18 de dezembro de 2010. Operação Paperstorn. Flyers e pichações para dar a conhecer o Anonymous e sua luta pela liberdade de Assange.
Meados de dezembro. Operação Leakspin, para dar a conhecer o conteúdo de documentos da diplomacia norte-americana que passaram despercebidos.
20 de dezembro. Operação Sinde. Ataque DDoS contra os sítios do PSOE, CiU e do Congresso dos Deputados.
2 de janeiro de 2011. Anonymous anuncia a Operação Tunísia e derruba os sítios do regime após a imolação de um jovem tunisiano.
8 de janeiro de 2011. Operação contra o sítio do partido irlandês Fine Gael.

Thursday, 21 June 2012

David Harvey entrevistado en Brasil


http://www.kaosenlared.net/secciones/item/13987-david-harvey-entrevistado-en-brasil.html?tmpl=component&print=1 


David Harvey entrevistado en Brasil

por André Pasti, Luciano Duarte, Melissa Steda e Wagner Nabarro
Sábado, 07 de Abril de 2012 03:54
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David HarveyDavid Harvey
Entrevistamos David Harvey durante sua estadia em São Paulo para o lançamento da edição em português de O Engima do Capital e as crises do capitalismo (Boitempo, 2011).
Contribuíram: Adriana Bernardes da Silva, Eduardo Augusto Wellendorf Sombini, Vicente Eudes Lemos Alves e Sérgio Henrique de Oliveira TeixeiraAgradecimentos: Boitempo Editorial – Yumi Kajiki e Kim Doria; Mariana Herig
Entrevistamos David Harvey durante sua estadia em São Paulo para o lançamento da edição em português de O Engima do Capital e as crises do capitalismo (Boitempo, 2011). Harvey falou sobre a atual crise do capitalismo, a acumulação por espoliação e as cidades como locus da produção da resistência ao capitalismo, entre outros temas.
Boletim Campineiro de Geografia: Professor Harvey, gostaríamos de iniciar falando sobre O Enigma do Capital, lançado recentemente no Brasil pela Boitempo Editorial. Começando pelo final do livro, quando o senhor discute “o que fazer”, o senhor propõe que “um outro comunismo é possível”, e mesmo que poderíamos batizar a luta de “anticapitalista” e de “Partido da Indignação” contra o “Partido de Wall Street”. Parece que essas e outras ideias suas foram inspiradoras para movimentos como o #OccupyWallStreet. Pouco menos de seis meses após o início desse movimento em particular, gostaríamos de saber qual é sua avaliação a respeito. Ele tem se mostrado efetivo? Quais aprendizados já podemos tirar dessa experiência?
David Harvey: Na verdade, eu não acho que eu tenha inspirado o movimento... O que fiz em O Enigma [do Capital] foi concluir, a partir de uma sériede movimentos sociais ocorrendo em Nova Iorque, que algo assim iria acontecer. Em outras palavras, apenas expressei-me de acordo com o que estava acontecendo ao redor. Havia descontentamento em todo lugar, estava bem claro que alguma coisa iria acontecer, mas exatamente o quê eu não sabia...
Então, penso que muitas dessas questões de certa forma vão de encontro à teoria que coloco em O Enigma do Capital, segundo a qual todo o processo de transformação social nos movimentos revolucionários, nas suas diferentes dimensões, e o que aconteceu nos Estados Unidos e até certo ponto na Europa são resultados de um movimento direitista que mudou seu discurso, seu modo de pensar a austeridade, a empatia, o Estado, a política e todo o resto. E o que muitas pessoas estavam querendo era que a esquerda mudasse as discussões por meio desse movimento.
Penso então que um dos primeiros objetivos do movimento [Occupy] “Wall Street” é mudar as discussões, redirecioná-las de volta à questão da desigualdade social. E, particularmente, não apenas a desigualdade da riqueza, mas a desigualdade de poder político, a falta de formas democráticas de governo, e nesse sentido penso que o movimento obteve sucesso na mudança da discussão. Agora, até mesmo o Partido Democrata dos Estados Unidos discute sobre desigualdade social, o que o aterrorizaria uns dois anos atrás... Isso, porém, é apenas um tiro inicial, e penso que a grande questão agora é como organizar um movimento social que seja amplamente anticapitalista. Penso que está havendo um momento de reflexão sobre como fazer isso e há discussões em muitas partes do mundo. E, é claro, as coisas de sempre acontecem na esquerda: o Partido dos Trabalhadores socialista diz “façam do meu jeito”, os maoístas dizem “façam do meu jeito”, os autonomistas dizem “façam do meu jeito” e há uma ampla gama de debates em torno disso, mas penso que há também grande desejo de buscar coalizões e alianças.
Vemos, por exemplo, o movimento estudantil chileno, onde há grande diversidade, mas ainda assim há, penso eu, uma aliança muito sólida, um conjunto muito claro de demandas. E essas demandas parecem-me ligadas ao caso chileno que poderíamos chamar de “pinochetismo”: dizem os estudantes que nos livramos de Pinochet, mas seu sistema continua, e temos que nos livrar dele. O mesmo ocorre também na Inglaterra, onde Thatcher já saiu há muito tempo, mas o “thatcherismo” ainda está conosco. O mesmo nos EUA, onde Reagan começa a parecer um trapalhão amigável (risos) para superar o atual partido republicano. Então a questão é acabar com o “reaganismo”, o “thatcherismo” e o “pinochetismo” e fazer algo que seja radicalmente diferente. Penso que há um começo de crescentes coalizões por aí. Agora estamos ao menos voltando às políticas socialdemocráticas,  como as que Lula estava desenvolvendo aqui, ou até certo ponto a política redistributiva dos Kirchner na Argentina. Se estamos voltando a esse tipo de modelo ou indo além, como os estudantes chilenos gostariam, ou ainda se isso se parece mais com o caso da Bolívia, e o que irá acontecer, eu realmente não sei. Penso que estamos diante de uma espécie de pausa ou momento reflexivo: “e agora?”.
BCG: No livro [O Enigma do Capital], o senhor chama atenção para o poder dos proprietários de terras e dos ativos e rendas das terras, que têm sido subestimados. Com a financeirização, há uma união entre rentistas e financistas. Quais são as principais características dessa coalizão política e quais são as consequências para a produção do espaço urbano?
Harvey: Há dois comentários que gostaria de fazer. Primeiro, há o comentário histórico. Há crescentes evidências de que a acumulação de riqueza pela burguesia dos séculos XVI e XVII no campo foi tão dependente do ganho de poder e de ativos de terras quanto foi da exploração do trabalho nas fábricas. E também de que, até o dia de hoje, as pessoas mais ricas em muitas partes do mundo são as pessoas que controlam a terra.
Tem havido uma tendência, por exemplo dentro do marxismo, de se subestimar a significância da renda da terra para o poder burguês. E então chegamos aos dias de hoje, quando o que se vê é na realidade uma tremenda apropriação de terras acontecendo, não apenas por capitalistas ou corporações individualmente, mas também por via de aparatos estatais. Basta observar o que o Estado chinês está buscando, por meio da relação com ativos de terras em grande parte da América Latina, por exemplo. É possível tanto ganhar controle diretamente pela compra quanto subcontratar produtores nas terras, para que eles se tornem gerentes de seus ativos. Na África isso também tem ocorrido, por exemplo.
Esse é um esquema geral de como a dinâmica da acumulação ocorre atualmente, obviamente uma política diferente daquela de exploração do trabalho na produção. Ela visa e envolve muita acumulação por espoliação1. E se atentarmos para o que está acontecendo a populações indígenas na Índia central e nordeste ou na Amazônia, o que veremos é uma tremenda acumulação por espoliação. Isso foi, inclusive, um dos grandes estopins para os movimentos revolucionários na Bolívia. E, novamente, este último não tem um bom histórico, a meu ver, de reconhecimento da relação entre os conflitos causados pela espoliação e os conflitos ainda muito relevantes no processo de trabalho.
Agora a conexão disso com as finanças. Interessantemente, Marx, em sua teoria da acumulação primitiva, fala sobre a emergência de uma “bancocracia” (bankocracy) na Inglaterra do século XVII, que era baseada na acumulação de ativos de terras. Dessa forma, o financiamento da aquisição de ativos e, é claro, a especulação dos valores de ativos de terra tornaram-se muito importantes. O que se vê atualmente nas áreas urbanas é uma grande ênfase em maximizar a renda da terra e as receitas da terra e da propriedade. Mas, novamente de maneira curiosa, a esquerda não integrou essa questão a muitas políticas e eu gostaria de ver muito mais atenção prestada a essa área de ação política.
BCG: E como o senhor analisa os processos de acumulação por espoliação na crise atual? Especialmente em relação ao Brasil, onde observamos grandes investimentos em infraestrutura nos anos 2000, subsidiados por fundos públicos mas capturados por grandes iniciativas privadas, como essa questão ocorre?
Harvey: Sempre houve, em termos de investimentos em infraestrutura, em grandes represas por exemplo, e há várias delas no Brasil. A construção de uma grande represa envolve espoliação. Com ela vem uma questão interessante, relativa ao que acontece com os espoliados. Muito frequentemente, o que vemos é que não lhes é oferecida uma compensação rápida, e algumas vezes ela sequer é oferecida. Como aconteceu na Índia com a represa de Narmada, em que nem mesmo souberam o que estava acontecendo.
O que vemos, então, são grandes investimentos em infraestrutura, que frequentemente envolvem a expulsão de pessoas de suas terras e do controle de suas fontes tradicionais de sobrevivência. Esse processo acontece no capitalismo há muito, muito tempo. Porém o que penso que está associado a isso agora é o que falávamos há pouco, sobre o aspecto de apropriação de terras no qual o capital se baseia, e isso é reconhecido nas suas estratégias de investimentos para o controle sobre a terra e sobre os recursos. Envolve a privatização de todos esses recursos que deveriam ser considerados propriedade comum.
Existe uma onda específica de acumulação por espoliação que foi construída com base nessa tomada de terras, e é claro que isso provoca resistências, como o movimento maoísta no centro-sul e nordeste da Índia, que está tentando impedir as corporações e o Estado de tomarem suas terras, seus recursos e suas águas. Isso é uma parte muito  importante da fisionomia do capitalismo, e em tal grau que o capital acha difícil encontrar grande lucratividade na produção convencional. Então vemos uma onda de capital excedente começando a se mover para essas áreas, criando um tipo diferente de processo político.
BCG: Mudando um pouco de assunto, a crise e sua rápida expansão foram possíveis também por meio da compressão do espaço-tempo, e nesse contexto a informação assume um papel determinante. Vemos historicamente o controle da maior parte dos fluxos informacionais nas mãos de poucos agentes e empresas, de maneira geral ligadas aos agentes econômicos hegemônicos. Quais são a importância e as possibilidades que o senhor vê para a desconcentração e a democratização dos meios de comunicação hoje? O senhor acha que essa é uma tarefa central na agenda de enfrentamento do capitalismo?
Harvey: Há muitas coisas nessa questão! Minhas aulas sobre o volume II de O Capital [de Karl Marx] estão para sair na web, e uma das questões-chave que você vê claramente nesse livro é a importância do tempo de retorno [do investimento].
A quantia que um capitalista movimenta é incrivelmente importante. Se eu posso obter retorno do meu capital mais rápido que você, eu dobro meu lucro e você perde o seu. Existe, na dinâmica do capitalismo, uma necessidade de impulsão, de acelerar e se tornar mais rápido. Isso tem acontecido há realmente muito tempo. Se observarmos a história da inovação e nos perguntarmos quanto dessas inovações buscavam acelerar as coisas, a resposta será que a história do capitalismo trata-se, em grande parte, de acelerar, acelerar, acelerar, acelerar, acelerar. E agora temos computadores muito rápidos, tomadas de decisão muito rápidas. O resultado disso é que o capitalismo como sistema se tornou o que eu chamaria de muito mais fortemente acoplado. Você pode distinguir uma coisa que eu chamaria de sistema fracamente acoplado, como uma universidade. As pessoas debatem uma questão filosófica na universidade por dois anos e nada acontece, mas a universidade sobrevive. Brigam para decidir se indicam alguém para uma ou outra área, e isso pode durar seis meses, um ano ou não durar nada... Então a universidade é um sistema fracamente acoplado, que pode sobreviver perfeitamente bem a um ou outro tipo de política.
Uma usina nuclear é um sistema não fracamente, mas fortemente acoplado. Se as coisas começam a dar errado, não se pode convocar uma assembleia geral e ter uma discussão sobre a filosofia da energia nuclear, se é ou não uma boa ideia ter energia nuclear. A transmissão de energia age mais rápido, então temos que nos mover mais rapidamente. Uso essa distinção para dizer que o capitalismo mudou, através do tempo, de algo como as universidades para ser mais e mais como as usinas nucleares. Vemos isso particularmente no capitalismo financeiro. E  vemos particularmente, é claro, a significância e a importância da informação e dos fluxos informacionais. É surpreendente quando ligamos a TV e vemos todos aquelas chamadas (tickers), “qual é o preço disso?”, “o que está acontecendo por aqui?”, “o que está acontecendo no mercado de ações em Tóquio?”... Uma organização como a Bloomberg News, que produziu um homem muito rico, que agora é prefeito de Nova Iorque e governa a cidade... Isso é algo que sempre foi uma tendência sob o capitalismo, mas que se tornou muito mais rápido. E, novamente, o resultado disso é que é muito fácil para as coisas darem errado em um sistema fortemente acoplado, e os mercados financeiros agora são assim. Trocas estão acontecendo nestes milissegundos ou nanossegundos, e são todas computadorizadas... E está tudo funcionando de acordo com modelos, tudo funcionando bem de acordo com o modelo de trabalho... Mas se algo dá errado e o modelo não funciona, então a coisa começa a crescer como uma usina nucelar, e vimos o que houve em 2007 e 2008, com a quebra do [banco] Lehman Brothers e o que veio em seguida. Esse é o panorama geral. O resultado é que a informação e suas estruturas se tornaram integradas a isso, de modo que é muito mais difícil exercer qualquer controle democrático. Como se exerce controle democrático sobre as trocas computadorizadas em Wall Street? Ninguém consegue. Quer dizer, soa até mesmo como uma questão estúpida de se fazer! Então, na verdade, há muitas coisas sobre as quais não se podem ter um debate e uma discussão democráticos, como se pode numa universidade. Foi demonstrado nesses últimos anos que não há espaço para discussão democrática.
O que vimos como resultado disso, recentemente, foi a ruína dos processos democráticos na Grécia e na Itália. Foram nomeados tecnocratas para fazer o governo, porque a democracia não podia fazê-lo. Os sistemas fortemente acoplados são muito hierárquicos, e assim, na verdade, é extremamente difícil atingir o que uma democracia realmente teria de ser. Isso coloca um problema muito grande para a esquerda, para aqueles que querem maximizar sua democracia. Tentam desmantelar todos esses sistemas de comércio dos quais o mundo agora depende, para voltar a ter tudo organizado como uma universidade – assembleias intermináveis e discussões, e talvez alguma coisa aconteça, mas talvez não. Queremos voltar a esse mundo ou queremos pensar em um novo meio de encontrar uma democracia? Eu não sei, teria que ser uma forma de organização que permitisse gerenciar esses sistemas fortemente acoplados como usinas nucleares, sistemas de trocas financeiras e afins.
A mídia, é claro, foi pega entre esses dois mundos: por um lado, tenta democratizar um pouco, geralmente personalizando o conteúdo, por exemplo com a mídia de noticiários abordando muitas histórias de interesse pessoal. Ao mesmo tempo, penso que ela deve transmitir algumas dessas outras informações, as chamadas (tickers), o que está acontecendo em Wall Street, o que está acontecendo com seu fundo de pensão. Porque eu quero dar uma olhada no que está acontecendo com meu fundo de pensão, hoje pode estar caindo, amanhã pode estar subindo... Como posso pensar se irei me aposentar ou não, se eu não souber se meu fundo de pensão irá cair ou subir? Se vou a um conselheiro financeiro, ele me diz “não se preocupe, tudo vai subir” e então tudo cai... Então esse é o mundo em que vivemos hoje, e novamente é algo ao que nunca prestamos atenção, não fantasiamos sobre a existência de algum mundo onde esses sistemas fortemente acoplados não existam... Essa é uma das minhas reclamações aos autonomistas e anarquistas, eu sou muito simpatizante de muito do que defendem, mas eles falham em responder à questão “o que faremos sobre esses sistemas fortemente interligados que o capitalismo construiu e o que acontecerá se eles forem desmanchados?”.
BCG: Como o senhor analisa hoje os novos arranjos geopolíticos mundiais, com uma presença mais destacada de países como o Brasil, a China e a Índia e uma redução do papel dos países da Europa? Qual a consequência disso? Os países denominados até recentemente “periféricos” conseguem adiar por algum tempo, pela via do aumento do consumo, o colapso do capitalismo?
Harvey: Sabe, eu participava de seminários com Giovanni Arrighi, e nós constantemente discutíamos e debatíamos. Em meados da década de 1970, Arrighi decidiu abandonar o conceito de imperialismo. Ele simplesmente disse “veja, não acho que esse modo de pensar faça sentido, o mundo em que Lenin viveu não é o mundo que está sendo construído pela globalização atualmente”, e ele enxergou isso muito cedo. Então o que ele fez foi substituir a linguagem do imperialismo pela da hegemonia, e dizer que há centros hegemônicos e estruturas hegemônicas no capitalismo global. Os EUA em meados de 70 eram certamente hegemônicos.
Na época, me pareceu que Arrighi foi um pouco tolo ao não falar sobre o imperialismo estadunidense e falar sobre a hegemonia estadunidense. Mas agora chegamos em um ponto no qual provavelmente faria mais sentido usar a linguagem da hegemonia, porque o que vemos é a emergência de muitos centros hegemônicos diferentes no sistema global e também hegemonias locais. O Brasil, por exemplo, é consideravelmente hegemônico na América Latina... E alguns de vocês diriam que o país está sendo imperialista. Na Argentina você pode ouvir um pouco dessa alegação (risos)! Por outro lado, os EUA continuam imperialistas em relação ao Brasil, ou a hegemonia estadunidense está enfraquecendo em favor de outro centro, que é a China? E qual a relação do Brasil com a emergência da hegemonia chinesa? E o que fazem com toda essa plantação de soja de vocês, para onde está indo tudo isso? Por que o comércio internacional mudou de tal forma que as trocas do Brasil e da Argentina com a China decuplicaram em, digamos, dez anos? É um novo sistema hegemônico emergindo?
Prefiro, então, pensar nesses termos, e o que vemos são muitos tipos de hegemonia, centros hegemônicos menores, como por exemplo a Coreia do Sul, que por volta do final da década de 1990 repentinamente se viu com mais e mais capital excedente. E o que fizeram com isso? Começaram a investir no exterior. Então muito do desenvolvimento na China foi graças a capital exportado da Coreia do Sul. Se formos a algumas partes da América Latina, encontraremos subcontratados da Coreia do Sul e de Taiwan que vêm organizando estruturas industriais na Guatemala, América Central e afins.
Gosto de pensar que é aí que a Geografia entra muito fortemente. Existe aí um desenvolvimento geográfico desigual e junções desiguais de diferentes relações hegemônicas entre diferentes grupos. E o que vejo é um problema interno generalizado na Europa de como gerenciar o Euro, que parece demonstrar que a Europa está mais fraca. Claro que ela ainda é uma poderosa e significativa hegemonia no comércio global, e que tem seus próprios problemas internos. Mas eles estabeleceram essa moeda, o Euro, sem nenhum sistema de segurança fiscal. O que aconteceria se você não tivesse um crescimento forte?
Então eles adquiriram um outro problema, que também temos um pouco nos EUA. Eles estão tão comprometidos com a noção de que a austeridade é a resposta para isso que, politicamente, estão tornando todo o espaço um tipo diferente de mundo, apesar de existirem partes da Europa que não concordam com a mensagem de austeridade e que estão indo extremamente bem. Por exemplo, a Suécia está indo muito bem agora, a Holanda está indo muito bem também, a Alemanha está bem, e ainda é uma hegemonia muito poderosa em relação à Europa. Então eu preferiria falar dessa forma do que tentar usar a noção de um centro simbólico como os EUA, que está enfraquecendo, e que há uma periferia em algum lugar...
Eu realmente não vejo o Brasil como periferia. Vejo como um centro hegemônico, com um grande poder dentro de sua “arena” hegemônica. O Brasil agora tem interesses na África, que está crescendo substancialmente! E, pelo que sei, os brasileiros estão empreendendo uma acumulação por espoliação na África. A Petrobras é muito ativa na extração de recursos. Gosto de olhar a situação nesses termos, que são muito mais geográficos do que esse tipo de “periferia do imperialista”, do que essa imagem de “mundo marginalizado”.
BCG: Um dos conceitos mais trabalhados pelo senhor é o de “destruição criativa”. Esse conceito ajuda a entendermos como várias políticas neoliberais são implementadas. Entretanto, podemos ver atualmente esse modelo de política sendo posto em prática em momentos de grande euforia social, como por exemplo grandes eventos, obras de infraestrutura e políticas habitacionais. O senhor vê essa “nova” forma de implementação de políticas neoliberais como uma tendência atual?
Harvey: Existem formas de destruição criativa das quais eu sou muito a favor. Eu gostaria de ver a classe capitalista criativamente destruída, por exemplo. Um ditado diz que não se pode fazer uma omelete sem quebrar alguns ovos, e a revolução é justamente um momento de destruição criativa. Então acho complicado pegar um conceito como “destruição criativa” e torná-lo automaticamente neoliberal. De um lado, existem formas de destruição criativa que são engajadas ao liberalismo e que são, penso, muito específicas ao projeto neoliberal. Por exemplo, existem algumas áreas pelas quais o capital não quer pagar, como os custos da reprodução social, como o custo da educação, da saúde, quem vai tomar conta dos idosos... O capital não pode estar relacionado a isso.
O que a social-democracia fez foi forçar o capital a internalizar alguns dos custos da reprodução social. De forma que minha educação, por exemplo, foi gratuita, desde o jardim de infância até eu conseguir meu PhD. Era disso que se tratava a social-democracia. Mas, nos anos 1970, houve essa contrarrevolução que afirmou que precisávamos nos livrar de todos esses custos da reprodução social, que se tornaram o que os economistas chamam de externalidades. E o mesmo aconteceu com o ambiente, deixaram de pagar pelos custos ambientais, outros teriam de pagar por isso. Você agora tem que pagar por sua própria reprodução social. Tem que pagar por sua própria educação, sua própria saúde. É essa a amarga filosofia... Eles querem “destruir criativamente” todo o Estado de bem-estar social, todos os aspectos da internalização do custo da reprodução social, bem como do custo da degradação ambiental. Esse tem sido o projeto neoliberal, externalizar esses custos para que o capital não tenha de pagar por nenhum deles.
Esse é, penso, um aspecto muito importante do que a política neoliberal se trata, que responde à questão de como o neoliberalismo usa a destruição criativa. Não inclui, como muitos acreditam, a destruição criativa dos Estados. Na verdade, os neoliberais querem um Estado muito forte e poderoso! Querem um Estado assim para apoiar seus interesses, que é algo que temos muito nos Estados Unidos atualmente. Temos um Congresso que é dominado por grandes corporações e pessoas muito ricas. Então, ao invés de falar de destruição criativa como uma coisa ruim em geral, preferiria falar sobre as formas específicas que a destruição criativa pode tomar. Porque, em qualquer sociedade, qualquer tipo de mudança geralmente envolve algum tipo de destruição criativa, o que levou à famosa afirmação do século XVII, de que “toda mudança é ruim, mesmo quando é para melhor” (risos). Que generalização péssima...
BCG: No livro [O Enigma do Capital], o senhor resgata a discussão sobre urbanização feita por Engels em 1872 e demonstra as semelhanças com os processos de gentrificação atuais. O senhor também afirma que, no período atual, a urbanização se tornou global. Quais seriam os desafios atuais para materializar o direito à cidade como um princípio de democracia e justiça social? E como essas lutas poderiam, também, ganhar a escala global?
Harvey: Publiquei recentemente um livro2, já lançado na Inglaterra e nos EUA, chamado “Rebel Cities: from the Right to the City to the Urban Revolution” (tradução livre: “Cidades Rebeldes: do Direito à Cidade à Revolução Urbana”), que trata justamente de todas essas questões. Tentarei respondê-las. Em primeiro lugar, o ponto central do livro é falar sobre o papel da urbanização na história da acumulação de capital. Que está muito relacionada, é claro, ao que já mencionei sobre o papel da propriedade e da terra na acumulação de capital, mas também ao uso do capital excedente para construir as cidades e à atração de capital para construção de projetos urbanos. Observamos que a depressão dos anos 1930 nos Estados Unidos foi amplamente resolvida em 1945 pelo aumento de projetos de suburbanização nos EUA, com todas aquelas estradas construídas...
Um comentário muito interessante foi feito por um funcionário do FED (Federal Reserve, o banco central norteamericano). Os Estados Unidos têm tradicionalmente saído de depressões construindo casas e enchendo-as de coisas. Mas agora não podemos fazer isso, porque já temos muitas casas e elas já estão cheias de coisas, e os EUA precisarão achar um caminho para sair da depressão por meio de um grande projeto de habitação. O lugar para onde tudo isso está se encaminhando é a China. Existe um grande projeto de urbanização acontecendo lá. E, na verdade, eu suspeito que uma das razões do crescimento dos países chamados BRICs, incluindo o Brasil, é que a indústria da construção é muito vigorosa. Vejo isso também em Buenos Aires... Quando vou para algum lugar, conto o número de construções que vejo. Na Espanha, dez anos atrás, havia milhares e milhares de construções. Agora, não há mais nenhuma a vista. Então a urbanização tem um grande papel na acumulação de capital.
Disso segue que a urbanização deve ser vista sob uma perspectiva de como gerenciar o conflito de classes. E o que fiz no livro foi sugerir “por que não para de falar sobre a produção de coisas, e começamos a falar sobre a produção de cidades?”, tendo em vista que a cidade é um dos grandes locais de conflitos de classe. Não conflitos de classe internalizados nas fábricas, mas conflitos sobre a cidade e sobre a produção e a reprodução dela, sobre a produção e a reprodução dos espaços urbanos... De modo que, quando começamos a pensar nos conflitos de classes nessa direção, obtemos uma ideia completamente diferente de quem são os proletariados, quais os atores envolvidos. Nosso objetivo é construir uma cidade socialista, no que chamo de ruínas da urbanização capitalista. Porque a urbanização capitalista tem sido consideravelmente desastrosa socialmente, politicamente e também ambientalmente.
Então temos que pensar em uma revolução, uma revolução urbana como um tópico essencial particularmente agora, porque mais capitalismo é observado na construção de cidades do que em formas convencionais de produção. Então o que fiz nesse livro foi dizer quem está em conflito na cidade, como estão conflituando e por que pensam só na cidade como local para rebeliões. E se olharmos para o passado, veremos que a maioria das cidades tem frequentemente sediado rebeliões. Temos a Comuna de Paris, claro, mas olhando ao redor veremos também a Comuna de Xangai, os eventos na Praça Tahir (no Cairo) e que cidades são na verdade locais de ação revolucionária, e me parece então que, bem, essa é uma forma diferente de organização política que a cidade tem que contemplar. Trata-se de como organizar a cidade toda. Politicamente. E o que construir quando começar a fazer isso... Eu geralmente faço uma analogia. Como o capital mercantil se tornou dominante? Um dos meios pelos quais se tornou dominante foi pela construção de associações como a Liga Hanseática, que era uma liga de cidades. Imagine uma liga de cidades socialistas e o que fariam coletivamente. E, na verdade, se olharmos para o passado, em 1968 veremos eventos simultâneos em todas essas cidades. Observando outros eventos significativos no passado, há um que ninguém realmente abordou até hoje, que é a marcha antiguerra ocorrida em 15 de fevereiro de 2003. Milhões de pessoas saíram às ruas em Roma, Barcelona, Madri, Londres, Melbourne, Tóquio e, é claro, em Nova Iorque e Los Angeles. Simultaneamente, todas as cidades estavam sendo fechadas, por protestos em massa.
O que aconteceria é que poderíamos desligar o capitalismo desligando as cidades. Porque se as cidades não funcionam, o capitalismo não funciona. Aprendemos isso fortemente no peso que teve o 11 de setembro. Nova Iorque fechou, não era possível ir para o centro, atravessar as pontes, não era possível mover-se. Três dias depois, certamente as pessoas perceberam fortemente que, se isso continuasse, o capitalismo estaria acabado. Então o prefeito anunciou: “pegue seu cartão de crédito, vá fazer compras, vá para a Broadway, comece a fazer coisas, temos de manter a cidade em movimento, ou começaremos a fechá-las”! Foi um momento muito tenso. Você pode ver até mesmo alguns acontecimentos aqui em São Paulo fechando a cidade... Então é possível de se fazer, não necessariamente do mesmo modo ou pelas mesmas razões pelas quais foi feito, mas já vimos o resultado de quando isso é feito.
BCG: Agora uma curta (risos): quase 30 anos após a publicação de A Justiça Social e a Cidade (1973), como o senhor vê a atualidade dessa obra?
Harvey: Esse último livro (Rebel Cities) foi, de certa forma, uma espécie de continuação do projeto de A Justiça Social e a CidadeA Justiça Social e a Cidade foi como uma tacada inicial na questão do relacionamento entre urbanização e acumulação de capital, e eu tenho trabalhando nessa questão diversas vezes, como no livro sobre Paris3. Penso que o último livro é não uma conclusão desse projeto de A Justiça Social e a Cidade, mas uma atualização, com um maior entendimento sobre o mercado e a economia política e um modo mais sofisticado de entender quais são as relações entre a urbanização e a mudança social, por meio dos movimentos sociais urbanos.
BCG: Pensando sobre o campo da geografia hoje, observamos uma certa falta de diálogo entre a geografia crítica anglo-saxônica e a latinoamericana. Como o senhor vê as barreiras para esse diálogo e como seria possível superarmos essas barreiras rumo a um diálogo global mais intenso da geografia crítica?
Harvey: Não sei... o que vocês pensam disso? Essa é uma questão para vocês, vocês têm de tentar organizar os geógrafos, a geografia crítica, para que ela lide com essa questão. Quero dizer, eu realmente valorizo muito minhas raízes no pensamento geográfico, mas certamente não me vejo como alguém confiável para essa tarefa “geográfica”... No mundo anglófono muitos geógrafos realmente não gostam do que eu faço, acham que sou destrutivo à missão científica que a “verdadeira geografia” deveria ter. Então é um problema dentro da geografia resolver essas questões...
Não que eu seja contra os trabalhos técnicos que geógrafos fazem, são incrivelmente úteis mas, a não ser que tenham por trás um projeto crítico, nós devemos questionar: para que servem? Queremos uma disciplina que simplesmente sirva ao Estado e às corporações ou uma disciplina que discuta como mudar o mundo, e que se relacione com os movimentos sociais populares? Penso que esse é o diálogo que deve ser feito dentro da geografia... Mas esse é um problema para vocês resolverem, é uma questão para vocês (risos).

1 Também traduzido por alguns autores como acumulação por despossessão (do inglês “accumulation by dispossession”).
2 A data oficial de lançamento é abril de 2012.
3 HARVEY, David. Paris, capital of modernity. Routledge, 2005.

‘Yearning for a more beautiful world’: Pre-Raphaelite and Symbolist works from the collection of Isabel Goldsmith

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