Saturday, 10 May 2014

450 anos de William Shakespeare

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450 anos de William Shakespeare

Pe. Alfredo J. Gonçalves
Adital

Celebramos os 450 anos de nascimento de um dos maiores gênios da literatura universal (senão o maior). Falamos do poeta, escritor e dramaturgo inglês William Shakespeare, nascido em Stratford, a 23 de abril de 1564 e falecido em 1616. Juntamente com figuras como Dante Aleghieri (1265-1321), François Rabelais (1494-1553), Montaigne (1533-1592) e Miguel de Cervantes (1547-1616), rompe com a visão de mundo medieval, ajudando a protagonizar o "nascimento do homem moderno” enquanto individualidade autônoma e consciente. Todos precursores do humanismo moderno, que se caracteriza pela emancipação do pensamento teocêntrico e pela abertura a uma forma livre e secular de pensar e agir. Humanismo e emancipação que, ao mesmo tempo, fecundam e se deixam fecundar pelo florescimento do Renascimento italiano.
Nesse espírito híbrido, formado pelo resgate de valores antigos e simultaneamente pela descoberta de novos caminhos do pensamento e da arte, o gênio inigualável de W. Shakespere fez desfilar pelos palcos, de forma caricaturizada e personificada, paixões e sentimentos humanos de profundidade psicológica sem precedentes, os quais somente três séculos mais tarde viriam a ser conceitualizados e sistematizados teoricamente por F. Nietzche (1844-1900), Siegmund Freud (1856-1939) ou S. Kierkegaard (1813-1855).
Em termos prospectivos, Shakespeare tornou-se um ponto de referência que haveria de influenciar os maiores poetas, escritores e dramaturgos de todo o mundo. Verdadeiro precursor da representação moderna e contemporânea. Entres tantos, poderíamos apontar alguns nomes dos que lhe seguiram os passos, tais como J. W. Goethe, J. Milton, O. Wilde, W. Whitman, W. Wordsworth, Virginia Woolf, L. Tostoy, F. Dostoievsky, B. Brecht, H. James, T. Mann, L. Pirandello, J. Joyce, M. Proust, C. Dickens, Jane Austen, Emily Bronte, Shelly, Kafka, Stendhal, Moliére… Não tem fim a lista dos que se beneficiaram de sua arte. Sua influência ou relevância, porém, não se limita ao mundo da ficção ou da representação. No cotidiano de nossas vidas, é difícil encontrar uma pessoa, conhecida ou desconhecida, que não possua alguma característica dos inesquecíveis personagens shakesperianos, adjetivo que, além de referir-se ao autor britânico, designa a rara capacidade de mergulhar no interior de si mesmo e acompanhar as próprias mudanças, como também de observar esse processo nos demais.
A cada dia e a cada esquina, ainda que em forma miniaturizada, tropeçamos com Hamlet, Romeu e Julieta, rei Lear, Sir John Falsfatt, Macbeth e Lady Macbeth, Iago, Edmund, Otello, Banquo, Shylock, Yarick… O genio inglês foi capaz de reunir em suas figuras clássicas e colossais o caráter das pessoas que, na rotina do dia-a-dia, encontramos nas famílias, nas ruas, nas praças, nos bares, pelos caminhos… Em suas tragédias, comédias ou representações históricas, desfilam não somente nossos medos, anseios e fantasmas, mas também nossos vécios e virtudes, luzes e sombras. Retratos fictícios, sem dúvida, porém mais realistas que as pessoas de carne e osso, que conhecemos por nome e sobrenome. Suas representações cênicas fundem em personagens protótipos aspectos que vemos dispersos nas mais variadas pessoas e, por isso mesmo, facilmente identificáveis também em cada um de nós. A arte retrata a realidade, mas o faz de forma exacerbada – a caricatura – com o intento de tornar visível aquilo que os olhos são incapazes de ver, ou aquilo que passa desapercebido aos demais sentidos. Trata-se, esteticamente, de uma espécie de "sexto sentido”.
É assim que, retrospectivamente, o Sócrates de Platão ou os personagens de Omero, Virgílio ou Lucrécio, entre outros, também se reencontram em Shakespeare. Nao seria exagero afirmar que as criações deste último têm muito presente a máxima de Sócrates: "conhece-te a ti mesmo” ou a de Jesus Cristo: "conhecereis a liberdade e a liberdade vos libertará” (Jo 10,10). De fato, nas cenas do dramaturgo britânico, as pessoas se dispõem a modificar-se na exata medida em que tomam conhecimento dos desejos, instintos e interesses que as dominam e da própria consciência em ação. O autoconhecimento revela-se como ponto de partida para a transformação pessoal no transcorrer mesmo da trama.
Nessa perspectiva, críticos da literatura como Harold Bloom, por exemplo, não exitam em dizer que Shakespeare (juntamente com autores de menor envergadura) constitui uma espécie de "criador” da subjetividade do homem moderno. Este, diferentemente da mentalidade medieval, mostra-se consciente do processo de formação da própria personalidade, bem como das mudanças que ocorrem dentro e fora de si mesmo. Surgem em suas peças personagens capazes de tomar nas mãos o instante exato da transformação invisível aos olhos, surpreendendo-se a si mesmos no ato mesmo de mudar e mudar o ambiente. São figuras que evoluem ou involuem com o desenrolar dos acontecimentos magistralmente representados.
As "epifanias do momento presente” (Cfr.Ulisses de James Joyce), as "intermitências do coração” (Cfr. Em busca do tempo perdido de Marcel Proust), as "cem mil facetas” do ser humano (Cfr.Uno, nessuno e centomilade Pirandello) ou a mediocridade humana (Cfr. O homem sem qualidades de R. Musil) – são como que insightsprivilegiados desse autoconhecimento shakesperiano. Trata-se de uma faculdade capaz de levar luz aos porões mais recônditos da própria personalidade, de iluminar as sombras mais desconhecidas e despovoadas do interior de si mesmo e de penetrar no labirinto inextrincável e tortuoso da consciência individual. "Coração de gente é terra selvagem”, diz o Riobaldo Tartarana de Guimarães Rosa em Grande Sertão - Veredas.
Nos dramas de Shakespeare, as reentrânciasocultas e noturnas da existência humana desnudam-se sobre um cenário profusamente iluminado. À luz nua e diurna, revelam "razões que a própria razão desconhece”, como diria Blaise Pascal. Não é exagero afirmar que, no dramaturgo inglês, a descoberta e a nudez do inconsciente, numa forma artística e fictícia (o que não significa menos real) precede de trezentos anos as revelações da psicologia e da psiquiatria contemporâneas.
Dallas-TX, USA, 1º de maio de 2014

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