Thursday, 13 February 2014

O teatro do engano

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O teatro do engano

Pesquisadora da Unicamp investiga as comédias do dramaturgo romano Plauto, referência para Shakespeare, Molière, Camões e Suassuna
CAROLINA ROSSETTI DE TOLEDO | Edição 216 - Fevereiro de 2014

A esposa colérica, o escravo astuto, o jovem apaixonado sem dinheiro, a meretriz, o parasita social. Esses são alguns dos personagens mais notórios da comédia de Plauto, dramaturgo romano nascido no século III a.C., cuja obra está entre os textos literários mais antigos preservados em latim. As comédias de Plauto foram retrabalhadas por escritores como William Shakespeare, Molière, Luís de Camões e, no caso brasileiro, Ariano Suassuna, que em 1957 usou como subtítulo de sua comédia O santo e a porca a frase “imitação nordestina de Plauto”. A pesquisadora do núcleo de Letras Clássicas do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL-Unicamp), Isabella Tardin Cardoso, estuda a Comédia Nova Romana, da qual Plauto é um dos principais representantes. Em 2006 ela publicou uma tradução para o português da peça Estico (Editora da Unicamp) e orienta duas alunas que lançarão este ano dois outros títulos de obras do autor. O movimento em torno do autor romano deverá levar a leituras dramáticas de suas comédias em São Paulo.
Pouco se sabe da vida de Tito Mácio Plauto (em latim, Titus Maccius Plautus). Sua biografia é conhecida apenas por testemunhos indiretos. Ele teria nascido em Sarsina, na região central italiana da Úmbria, por volta de 255 a.C. Há registros de que foi para Roma ainda jovem, possivelmente para trabalhar em bastidores de teatro, e tornou-se ator. Perdeu todo o seu dinheiro em um empreendimento náutico malsucedido, o que o teria arruinado por completo e o forçado à escravidão por dívida. Um texto do século II d.C. sugere ainda que Plauto começou a escrever peças de teatro justamente para escapar da penúria financeira. Nenhuma das versões pode ser atestada com segurança, diz Isabella.
O que se conhece do dramaturgo sobrevive por meio das peças que escreveu. Ao todo, atualmente há 21 comédias de sua autoria. A produção de Plauto faz parte da chamada Comédia Nova Romana, ou comédia paliata. O gênero faz parte do período inicial da dramaturgia latina, entre os séculos III e II a.C. da república romana, um momento de florescimento cultural e literário. O nome vem de pálio, um pequeno manto usado pelos atores nas encenações, em imitação ao vestuário usado pelos gregos.
Já se imaginou que Estico seja uma de suas primeiras produções; as notas de produção informam que a peça foi montada em 200 a.C. Para Isabella Cardoso, autora da tradução anotada em português, essa é uma peça de fato singular, pois vários blocos de cenas, diferentemente de outras produções romanas do período, não apresentam uma conexão direta entre si, atuando mais como esquetes independentes do que como um enredo coeso. “Nessa obra fica mais evidente uma característica de Plauto: ele privilegia o efeito humorístico de cada cena. Não está tão concentrado na progressão do enredo, e sim no efeito cômico”, explica a pesquisadora. O nome da peça é baseado em um dos personagens centrais, um escravo fanfarrão.
No momento, Isabella Cardoso está na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, onde, junto com os professores Jürgen P. Schwindt, Melanie Möller (Heidelberg) e Paulo S. de Vasconcellos (Unicamp), organiza a criação de um novo Centro de Teoria da Filologia, com sede dupla na Unicamp e na instituição alemã. Previsto para ser inaugurado este ano, o centro investigará sobretudo os métodos empregados pela filologia clássica para avançar no conhecimento de obras literárias da Antiguidade clássica, como as comédias de Plauto.
Entre os maiores desafios da tradução de Plauto, a pesquisadora aponta a dificuldade em manter as nuances de linguagem, a sonoridade do latim, as aliterações e os jogos de palavras. Sem falar no ritmo das peças, assunto que Beethoven Alvarez, da Unicamp, estuda sob a orientação de Isabella. “Traduzir qualquer comédia é um desafio e muitas vezes o tradutor acaba com a ingrata tarefa de ter de explicar a piada”, diz ela. Sua tradução de Esticorecebeu em 2007 indicação ao prêmio Jabuti de Melhor Tradução e, em novembro de 2013, uma leitura dramática do grupo de teatro paulista Instituto Cultural Capobianco. “No Brasil, poucos estudiosos de teatro e literatura conhecem Plauto. Por isso, tem sido fascinante a experiência dos atores, que se mostraram surpresos com a atualidade e graça das peças.”
Segundo Nadia Berriel, responsável pela curadoria da leitura dramática de Estico, a expectativa ao se ler uma peça da Antiguidade é encontrar dificuldades na compreensão do vocabulário e dos temas tratados nas peças. “Mas foi surpreendente o senso de humor não datado e de fácil compreensão de Plauto, assim como as semelhanças das personagens de Estico com tantos outros tipos cômicos presentes em textos teatrais muito posteriores. Ler Estico foi como beber na fonte dos grandes comediógrafos”, diz ela. Para Nádia, a leitura enriquece o imaginário do leitor contemporâneo. “Também nos permite reconhecer tanto diferenças quanto semelhanças entre nós, indivíduos do século XXI, e a humanidade de períodos tão antigos.”
Neste ano, o Instituto Capobianco estuda montar duas peças do dramaturgo, a partir de novas traduções de Anfitrião e Casina feitas por Lilian Nunes da Costa e Carol Martins da Rocha, orientandas de Isabella. O lançamento dos livros está previsto para este semestre.
Herança grega
A primeira tradução da épica grega Odisseia para o latim, realizada pelo ex-escravo Lívio Andronico, marca o início da literatura romana por volta de 240 a.C. A Comédia Nova Romana, produção literária surgida também nesse período, é caracterizada sobretudo pela atmosfera familiar, com tipos sociais padronizados (escravo, jovem, pai etc.), contrastando com os personagens políticos ou fantásticos (deuses, heróis) da comédia grega antiga. Comuns na Comédia Nova Romana (e ausentes de Estico) são os enredos amorosos impossíveis, sobretudo por histórias de um jovem que se enamora de uma moça, em geral uma escrava, meretriz ou mulher com quem, pelas regras sociais, ele não poderia se casar. O jovem, não dispondo de dinheiro para financiar o relacionamento, recebe ajuda de um escravo esperto. De acordo com Isabella, esse personagem, central e recorrente na obra de Plauto, elabora um plano para obter recursos, ação que invariavelmente envolve enganar alguém.
© NEGREIROS
As comédias de Plauto são traduções e adaptações de obras gregas anteriores. Em particular, de três grandes dramaturgos: Menandro, Dífilo e Filemão. Indícios da tradição grega se fazem evidentes em trechos dos diálogos e nos personagens, como, por exemplo, o nome do cômico Gelásimo, da peça Estico, deriva do grego “aquele que faz rir”. Segundo Isabella, expressões gregas deste tipo poderiam ser assimiladas com facilidade pela população em Roma em razão das constantes trocas comerciais e da aproximação militar entre Roma e Grécia no século III a.C. As peças de Plauto foram produzidas para ser encenadas durante os jogos cênicos, festivais religiosos organizados pelos políticos locais em homenagem a um ou mais deuses.
Uma das qualidades mais notáveis das peças de Plauto, segundo a pesquisadora, é sua habilidade em construir cenas de humor por meio da movimentação e gestualidade dos atores. “Comparado com o que se sabe da comédia grega, o humor plautino é mais caricatural, exagerado, bufonesco”, diz Isabella, que em janeiro terminou um capítulo para o Cambridge Companion to Roman Comedy, detalhando o uso de recursos humorísticos não verbais em Plauto e Terêncio, escritor de uma geração posterior ao do dramaturgo. Brigas, chutes e cenas de comédia pastelão são bem mais frequentes nas obras plautinas do que nas de Terêncio. Outro aspecto que diferencia Plauto dos demais escritores de seu tempo é o modo como ele distribuía os papéis entre os personagens. Diferentemente de Terêncio, por exemplo, que dava voz também aos que expressavam preocupações morais de cidadãos comuns da sociedade romana, os papéis mais importantes em Plauto são, em geral, dedicados a meretrizes, escravos espertalhões, parasitas sociais e outros tipos populares. EmMiles Gloriosus, Pirgopolinices é um soldado vaidoso e fanfarrão, em Casina uma jovem escrava é disputada por dois apaixonados, em Asinaria, peça também conhecida como A comédia dos burros, o personagem central é o velho avarento Demêneto, que tenta enganar sua mulher em troca de dinheiro. Esse humor contrasta com o tom mais sério da comédia A sogra (Hecyra), de Terêncio, peça que Aline Lazaro, da Unicamp, investiga sob orientação de Isabella.
O teatro do mundo
Além de ter obtido reconhecimento como comediógrafo em seu tempo, Plauto serviu de referência para muitos outros escritores. Alguns recursos usados por ele em suas peças, como os enredos sobre triângulos amorosos, a crise de identidade de seus personagens e a referência do teatro dentro do próprio enredo, foram retrabalhados por Shakespeare, Molière, Camões e, no Brasil, por Ariano Suassuna em suas composições. Em Plauto há cenas que funcionam como peças dentro das peças, com referências constantes à encenação, aos atores e espectadores. Esse tipo de metalinguagem produz um efeito de quebra da ilusão dramática e rompe, propositadamente, a sensação de verossimilhança. “Quando Plauto apresenta o ator como um enganador, fica enfatizada a ideia de que o teatro equivale a engano. Essa é uma estratégia muito usada por ele justamente para produzir um efeito cômico”, diz Isabella. “Shakespeare, por exemplo, além de aproveitar partes de enredos de Plauto, usa a noção de teatro dentro do teatro de modo parecido com como o escritor romano fazia.”
Essa concepção de que o “mundo é um teatro”, expressão conhecida por muitos a partir do segundo ato da peça As you like it (como gostais), de Shakespeare, seria, portanto, uma possível alusão a uma ideia antiga, que se destaca em Plauto. Da mesma forma, a última peça shakespeariana A tempestade explora o mesmo enredo de Plauto em Rudens: um grupo de náufragos chega a uma ilha desconhecida e misteriosa. As alusões do personagem Próspero ao teatro e à ilusão dramática podem ser vistas como igualmente vestígios de uma relação entre o mestre inglês e o dramaturgo romano, explica a pesquisadora.
A crise de identidade de Hamlet encontra paralelos na troca de identidades de Anfitrião. A trama dessa comédia se desenvolve em Tebas, quando Júpiter é tomado de amor por Alcmena e assume a forma de seu marido, Anfitrião, general grego que comanda legiões tebanas. Júpiter é auxiliado por Mercúrio, que por sua vez assume a forma de Sósia, o escravo de Anfitrião. Júpiter engravida Alcmena, que dá à luz Hércules, um semideus. Quando retornam da guerra, Anfitrião e Sósia deparam com seus duplos, o que em Plauto resulta em situações cômicas e uma sucessão de mal-entendidos. Esta história, observa Isabella, reaparece na literatura readaptada ao ambiente lusitano por Camões em 1587 e na França do século XVII na peça de Molière de mesmo nome. O francês adaptou também Aulularia em seu O avarento, mudando ambientes, renomeando personagens e introduzindo situações compatíveis com o teatro do século XVII.
A mesma Aulularia, traduzida como A comédia da panela, foi a inspiração para o pernambucano Ariano Suassuna escrever O santo e a porca, a história do avarento Euricão, devoto de Santo Antônio, que guarda suas economias numa porca de madeira. “O interesse pelo estudo das recepções dos clássicos tem aumentado no Brasil. Neste sentido, faz parte do estudo atual sobre a poética de Suassuna entender como ele retrabalha aspectos da Antiguidade com uma roupagem nordestina”, diz a pesquisadora, que orienta uma pesquisa específica sobre a recepção de Plauto em Suassuna. Um texto em coautoria com sua aluna Sonia Aparecida dos Santos será apresentado este ano em conferência no University College London. n
Projetos
1. Plauto, Anfitrião (nº 2011/17284-6); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa – Publicações Científicas; Pesquisadora responsável Isabella Tardin Cardoso/IEL-Unicamp; Investimento R$ 5.000,00 (FAPESP).
2. Plauto, Casina (nº 2011/17283-0); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa – Publicações Científicas; Pesquisadora responsável Isabella Tardin Cardoso/IEL-Unicamp; Investimento R$ 5.000,00 (FAPESP).
3. A fuga da sogra: poesia, humor e família em Hecyra (nº 2012/00726-9).Modalidade Bolsa de Iniciação Científica; Pesquisadora responsável Isabella Tardin Cardoso/IEL-Unicamp; Bolsista Aline Lazaro; Investimento R$ 4.627,92 (FAPESP).

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