Tuesday, 12 November 2013

As intermitências do poder

carta maior
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11/11/2013 - Copyleft

As intermitências do poder

Em O Último Rei da Escócia (2006), o diretor Kevin Macdonald apresenta um médico voluntário aprendendo que o dominado é antes de tudo aquele que se lembra.


Flávio Ricardo Vassoler
Divulgação
Caro leitor, cara leitora, perguntemos a Nero o que é o poder. O imperador provavelmente nos diria que se trata de algo para muito além da impossibilidade de se ouvir um “não”.

 
− Essa seria a definição daquele que não está acostumado a comandar, daquele já talhado a se inclinar e a acatar. “Não matarás!” – e o súdito logo embainha a espada.           

 
Para Nero, o poder se refere à expansão ilimitada das experiências. Quando sobe uma colina e contempla ao longe os seus domínios, o imperador já se confunde com a vastidão que sua visão arregimenta. Os soldados o idolatram, os generais sequer ousam conspirar, os credores prodigalizam, as mulheres a um estalar de dedos. Se Nero exige, tudo é permitido.

 
Mas a práxis do poder começa a tornar nebulosa a relação entre meios e fins. Quando Nero envia suas legiões para o patíbulo de uma nova guerra, trata-se de expandir o corpo do império romano, o corpo do próprio imperador. Ocorre que a expansão das fronteiras de Roma acaba se tornando algo comezinho para Nero. As saudações dos puxa-sacos – verdadeiro setor da divisão do trabalho em face do poder – já não impressiona o Todo Poderoso. Nero, a encarnação da vontade de poder, agora deseja algo imorredouro, algo que possa ecoar por séculos e séculos, amém. O poder, essa esfinge indômita, passa a confrontar Nero com o único desejo que o imperador não pode submeter: a imortalidade.


 
Nero caminha pelas ruas de Roma. Os centuriões o secundam. “Mas será mesmo possível que tudo isso sobreviverá a mim? Será mesmo possível que haja Roma após Nero?” Diante de um comércio em que os súditos já se haviam curvado em face da presença magna do imperador, Nero se dá conta de que o vendedor de peixes poderia estar em seu velório. “Será mesmo possível?” Contrariado, o mandatário-mor se volta para o centurião à sua direita. Basta uma palavra de Nero para que o sangue volte a tingir a porta dos templos. A multidão apenas ousa exalar um breve suspiro quando a espada do centurião separa a cabeça do peixeiro de seu tronco – algo que, há pouco, o comerciante havia feito com vários de seus peixes. Nero eleva a cabeça inerte para a massa – o sangue ainda respinga do que restou do pescoço. “Eis o destino de todos aqueles que ousarem sobreviver a Nero”. Se o imperador romano tivesse conhecido o Rei-Sol, Luís XIV o teria municiado com a essência do poder:
 
− Après moi, le déluge! Depois de mim, o dilúvio!
 
Mas Nero não quer a devastação das águas. Isso seria plagiar a Deus – o mesmo deus de Noé que Nero há muito suplantara. A água seca. O imperador então descobre que, na guerra, não se trata efetivamente de conquistar. Os soldados não querem apenas o butim. Eles querem pilhar, estuprar – destruir. Do pó viemos, ao pó retornaremos. Nero descobre o poder hipnótico das labaredas. Tudo o que o imperador construiu virá abaixo, nada pode sobreviver a Nero – ninguém pode respirar. “Tudo o que existe merece perecer”. Deus encarnado assiste às chamas que fazem Roma arder. De sua colina, as fumaças que sobem em turbilhão parecem um espelho para seu rosto, os contornos volúveis de seu desejo. Se Nero é mortal, Roma deve oferecer seus escombros em holocausto. Se Nero exige, tudo é permitido.
 
Nicholas Carrigan, médico escocês recém-formado, deveria ter lido a obra mais famosa de Caio Suetônio Tranquilo (69-141), Vidas dos Doze Césares, antes de decidir se aventurar por Uganda a reboque de serviços voluntários. O sucessor africano de Nero, o presidente/ditador Idi Amin Dada, se incumbiria de ensinar ao jovem doutor as prerrogativas d’O último rei da Escócia(2006), filme dirigido por Kevin Macdonald.
 
O escocês Nicholas entende o ressentimento de Amin – assim Nero é chamado em seu círculo de “amigos” – contra os ingleses, seus antigos senhores coloniais. Nicholas acaba sendo arregimentado pela camarilha do ditador. De médico voluntário a médico particular da presidência. O que Nicholas não entende é que a dialética envolvendo senhor e escravo gesta um novo dominador no ventre do súdito. Quando o antigo senhor é suplantado, uma nova dialética se estabelece – eis a amarga lição que a história vem nos legando à direita e à esquerda. Aquele que foi dominado traz as cicatrizes do látego. A memória e o ressentimento dão as mãos. O dominado é antes de tudo aquele que se lembra. O dominado é antes de mais nada aquele que não se esquece. O outrora dominado tomou o poder de Uganda. Nicholas se torna conselheiro de Amin. Se o médico tivesse lido Suetônio, um sábio provérbio árabe lhe serviria de conselho:
 
− Não diga ao amigo aquilo que o inimigo não puder saber.
 
O outrora médico voluntário precisa dar de ombros diante da política de extermínio sistemático da oposição que Amin Nero emprega a torto e à direita. A população continua a viver em choupanas e cabanas enquanto o mármore do palácio presidencial assiste às orgias de Amin, Nicholas e as ugandesas. Mas não demora para que os temores de Nero se apossem do senhor de Uganda. Amin começa a sentir as intermitências do poder.

 
Que mais Amin pode desejar? Tudo e todos estão a seu dispor. Há muito ele deixara de ser cozinheiro dos ingleses. Mas Idi Amin Dada, presidente autoproclamado de Uganda, jamais será um europeu. Ainda que a Escócia se ressinta pela dominação inglesa, Amin jamais será um escocês. Idi Amin Dada não será o último rei da Escócia. Amin pode mandar em Nicholas; Amin pode comandá-lo. Mas Amin não pode ser Nicholas. O presidente de Uganda terá que se contentar em ser um ditador menor.

 
Neste momento, o leitor e a leitora que estão acompanhado pari passu a dissecação do poder bem poderiam dizer:

 
− Ora, Amin jamais aceitará ser o segundo em comando. Que dirá o 40º exilado em Uganda! Amin Nero se rebelará contra as intermitências do poder. Amin passará à ofensiva. Nero retaliará.

 
Nicholas, conselheiro nomeado por Amin, se vê interpelado pelo ditador:

 
− Como é que você ousa me dar conselhos? Como é que você ousa dar conselhos a mim?

 
O leitor, a leitora e este escritor, possivelmente angustiados com a dialética envolvendo os mais diversos senhores e escravos – dialética de que a história até hoje não conseguiu dar cabo –, ficamos pensando sobre como superar essa condição. O francês Charles-Louis de Secondat (1689-1755), também conhecido como Barão de Montesquieu, fez uma proposta engenhosa. Para acabar com o absolutismo do poder – ou, então, para driblar suas intermitências –, Montesquieu pensou na tripartição dos poderes. Executivo, Legislativo e Judiciário. Que todos decidissem – e se vigiassem – para que todos pudessem governar. Sábio Montesquieu, para quem a velha máxima “é preciso dividir para reinar” pôde ser equacionada com vistas a, quem sabe, uma futura constituição da república democrática. Mas o leitor, a leitora e este escritor sabemos que a engenhosa formulação de Montesquieu não procura extirpar o absolutismo – ela apenas tenta torná-lo intermitente. Enquanto isso, o espectro de Amin Nero continua a convidar seletos Nicholas para a camarilha do poder. Caro leitor, cara leitora, o que você faria se recebesse tal convite? Àqueles e àquelas que colocamos os princípios férreos à frente da realidade dinâmica e bradamos um sonoro e imediato “não!”, Amin Nero, secundado por Nicholas, traz um conselho:

 
− Não diga ao amigo aquilo que o inimigo não puder saber.


 
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Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Todas as segundas-feiras, às 19h, apresenta, ao vivo, o Espaço Heráclito, um programa de debates políticos, sociais, artísticos e filosóficos com o espírito da contradição entre as mais variadas teses e antíteses – para assistir ao programa, basta acessar a página da TV Geração Z:www.tvgeracaoz.com.br. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias,www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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