Friday, 11 October 2013

ORIDES FONTELA

antonio miranda
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/sao_paulo/orides_fontela.html


ORIDES FONTELA(1940 — 1998)


Nasceu em São João da Boa Vista (SP), em 24 de abril de 1940, e faleceu num sanatório de Campos do Jordão (SP), em 2 de novembro de 1998. Começa a escrever em 1946, após ser educada por sua mãe. Em 1955, cursa a Escola Normal de São João da Boa Vista. Seus primeiros versos são publicados em 1956 no jornal “O Município” daquela cidade. Em 1967, vai para São Paulo (SP), onde ingressa no curso de Filosofia da Universidade de São Paulo – USP, formando-se em 1972. Trabalha como professora primária e bibliotecária em várias escolas da rede de ensino São Paulo. Após ter sido despejada do apartamento onde vivia, passa viver na Casa do Estudante, um velho prédio na Avenida São João daquela capital. De personalidade difícil, isolou-se dos amigos.  Morreu na miséria e, se não fosse a atenção de um médico que a atendia no sanatório, teria sido enterrada como indigente. Há um longo depoimento de Orides Fontela sobre a sua formação e sua obra no livro ARTES e ofício da poesia, organizado por Augusto Massi, publicado em Porto Alegre pela editora Artes e Ofícios

BibliografiaTransposição, 1969, Instituto de Espanhol da USP, coordenada por Davi Arrigucci Jr.; Helianto, 1973, Duas Cidades; Alba, 1983, Roswitha Kempf, Prêmio Jabuti; Rosácea, 1986, Roswitha Kempf; Trevo, 1988, Coleção Claro Enigma, organização de Augusto Massi; Teia, 1996, Marco Zero, Prêmio concedido pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte; Poesia Reunida, 2006, Cosac Naif/7 Letras;Trèfle (Trevo), tradução Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas - Paris: L'Harmattan, 1998; Rosace (Rosácea), tradução Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas - Paris: L'Harmattan, 2000.

Orides Fontela, em Teia, se apresenta fiel à tríade dos grandes poetas brasileiros (Drummond, Cabral e Bandeira); prova disto são os poemas que ressaltam a importância do cânone brasileiro, usando como recurso a metalinguagem como para reafirmar que a inquietação drumondiana (“Para C.D.A” e “Perdi o Bonde”), a precisão geométrica cabralina (“João” e “O pássaro- operário”) e a reinvenção do cotidiano de Bandeira (dada em Teia através do dito popular e da constatação súbita de uma realidade lírica) são elementos chave para criação de uma poética singular.
Eduardo Harau
São poemas imbuídos de investigação, mas que não recorrem à confissão ou a um tom de suspiro e enlevo. Íntimos, passando a largo de intimistas. Duros, críveis, laboriosos, destinado à lâmina da pedra mais do que à maciez do musgo. Orides Fontela conceitua a poesia como uma gramática. Poucos adjetivos, uma conduta de observação pura e imanente, protegida da transcendência. Com um repertório coloquial, nunca perde a realeza ou esbarra em facilidades expressivas. É comunicativa dentro de sua densidade, urde a complexidade das mais simples figuras.
Fabrício Carpinejar

Página construída por Salomão Sousa, publicada em agosto de 2007.





DESAFIO
Contra as flores que vivo
contra os limites
contra a aparência a atenção pura
constrói um campo sem mais jardim
que a essência.

AURORA III
Instaura-se a forma 
num só ato
a luz da forma é um único 
ápice 
o fruto é uma única forma 
instaurada plenamente
(o amor é unicamente
quando in-forma)

... mas custa o Sol a atravessar o deserto
    mas custa a amadurecer a luz
    mas custa o sangue a pressentir o horizonte 
VIGÍLIA
Momento            pleno: 
pássaro vivo 
atento a.
Tenso no 
            instante— imóvel vôo — 
plena presença
pássaro e 
            signo.
(atenção brancaaberta  e 
            vívida).
Pássaro imóvel. 
Pássaro vivo 
atento 
a.

INICIAÇÃO
Se vens a uma terra estranhacurva-te  
se este lugar é esquisito
curva-te

se o dia é todo estranheza
submete-te

— és infinitamente mais estranho.


***

Cansa-me. A chaga inumerável
de mim cintila, sem palavras, úmida
fonte rubra do ser, e tédio
de prosseguir, inabitada, viva.

Prosseguir. Ai, presença ignorada
do ser em mim, segredo e contingência,
espelho, cristal raso, submerso
na eternidade do existir, tranqüilo.

Cansa-me ser. Ai chaga e antigo sonho
de áureas transmutações e vidas outras
além de mim, além de uma outra vida!

Mas amolda-me o ser. Prende-me a essência
(raiz profunda e vera) a imutável
condição de ser fonte e ser ferida...

27.7.64

Kant (relido)

Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.


Cartilha

Foi de poesia
lição
primeira:
"a arara morreu
na
aroeira".


O equilibrista

Essencialmente equilíbrio:
nem máximo nem mínimo.

Caminho determinado
movimentos precisos sempre
medo controlado máscara
de serenidade difícil.

Atenção dirigida olhar reto
pés sobre o fio sobre a lâmina
ser numa só idéia nítida
equilíbrio. Equilíbrio.

Acaba a prova? Só quando
o trapézio oferece o vôo
e a queda possível desafia
a precisão do corpo todo.

Acaba a prova se a aventura
inda mais aguda se mostra
mortal intensa desumana
desequilíbrio essencialmente.


FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)


                     De Transpiração, 1969


DESTRUIÇÃO

A coisa contra a coisa:
a inútil crueldade
da análise. O cruel
saber que despedaça
o ser sabido.

A vida contra a coisa:
a violentação
da forma, recriando-a
em sínteses humanas
sábias e inúteis.

A vida contra a vida:
a estéril crueldade
da luz que se consome
desintegrando a essência
inutilmente.

                                   De “Trandpiração”, 1969

ESFINGE

Não há perguntas. Selvagem
o silêncio cresce, difícil.
                        De “Rosácea”, 1986

ADIVINHA


O que é impalpável
mas
pesa

o que é sem rosto
mas
fere

o que é invisív el
mas
dói

                        De “Teia”, 1996

FONTELA, Orides Teia: poemas.  São Paulo: Geração Editorial, 1996.  82 p.  16x223 cm.  Capa: Susana Kacowicz.   Col. A.M.



KAIRÓS

Quando pousa
o pássaro

quando acorda
o espelho

quando amadurece
a hora.


ADIVINHA

O que é impalpável
mas
pesa

o que é sem rosto
mas
fere

o que é invisível
mas
dói.


NOITE

Esconder (esquecer)
a face

soterrar (ocultar)
a luz

escurecer o
amor
dormir.
Aguardar o que nasce.



CÍRCULO

O círculo
é astuto:
enrola-se
envolve-se

autofagicamente.

Depois
explode
— galáxias! —

abre-se
vivo
pulsa

multiplica-se

divindadecírculo
perplexa
(perversa?)

o unicírculo
devorando
tudo.







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TEXTOS EM ESPAÑOL
Traducción de Adolfo Montejo Navas


HABLA

Todo
será difícil de decir:
la palabra real
nunca es suave.

Todo será duro:
luz impía
vivencia excesiva
conciencia exagerada del ser.

Todo será
capaz de herir. Será
agresivamente real.
Tan real que nos despedaza.

No hay piedad en los signos
ni en el amor: el ser
es excesivamente lúcido
y la palabra es densa y nos hiere.

(Toda palabra es crueldad).

                     De Transpiração, 1969


DESTRUCCIÓN

La cosa contra la cosa:
la inútil crueldad
del análisis. El cruel
saber que despedaza
el ser sabido.

La vida contra la cosa:
la violentación
de la forma, recreándola
en síntesis humanas
sabias e inútiles.

La vida contra la vida:
la estéril crueldad
de la luz que se consume
desintegrando la esencia
inútilmente.

                                               De “Trandpiração”, 1969

                   ESFINGE

                   No hay preguntas. Salvaje
                   el silencio crece, difícil.
                                                De “Rosácea”, 1986


ADIVINA

Lo que es impalpable
pero
pesa

lo que es sin rostro
pero
hiere

lo que es invisible
pero
duele.
                                    De “Teia”, 1996


Extraídos de Correspondencia celeste. Nueva poesía brasileña (1960-2000). Introducción, traducción y notas de Adolfo Montejo Navas.  Madrid: Árdora Ediciones, 2001 – Obra publicada com o apoio do Ministério da Culta do Brasil


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POÉSIE EN FRANÇAIS


ORIDES FONTELA

[Fontela, Orides de Lourdes Teixeira Fontela] (1940-1998)

Orides Fontela est née à Sâo João da Boa Vista (São Paulo), et morte à Campos do Jordão, dans le même Etat, tuberculeuse et dans le dénuement le plus complet. Elle a publié cinq recueils (dont Trèfle, Rosace, Toile). Bien que nourrie des poètes brésiliens et des philosophes qu'elle a étudiés à l'Université de Sao Paulo, son œuvre est inclassable, à l'image de son esprit indépendant. Comme l'a noté son ami le critique David Arriguci, qui contribua de manière déci sive à la fai re connaître, ses vers associent le concret le plus élémentaire et l'abstrait le plus épuré. Par un effort rigoureux de lucidité, sa poétique lyrique toujours très dépouillée débouche
sur une révélation soudaine qui réinvente un rapport original au sublime,
empreint d'une inquiétude métaphysique n'excluant nullement le travail du
négatif et de la destruction. (M.R.)  


La POÉSIE DU BRÉSIL du XVIe au XXe siècle. Choix & présentation de Max de
 Carvalho.  Anthologie traduite par Max de Carvalho em colaboration avec Magali de
 Carvalho & Françoise Beaucamp & avec la participation d`Ariane Witrowsky,
 Isabel Meyrelles, Inês Oseki-Dépré, Patrick Qyuillier & Michel Raudel.  Édition
 bilíngue.  Paris: Éditions Chandeigne, 2012.  1511 p.  15,5x22,5 cm.   capa dura.
 Table des mettières (resumé): Les Immémoriauz (Trois mythes des Indiens du
 Xingu), Chants e charmes d´amour indiens, Deux chants de manas; origines;
 arcadisme; Pré-romantiques; Romantiques; Parnassiens & symbolistes; Pré-
 modernistes; Modernes.

Nous voyons em miroir
et énigme

(mais serait-il d'autre forme
de voir?)

*
Le miroir dissout
le temps

le miroir creuse
l'énigme

le miroir dévore
la face.


Vemos por espelho
e enigma

(mas haverá outra forma
de ver?)

*
O espelho dissolve
o tempo

o espelho aprofunda
o enigma

o espelho devora
aface.


DEVINETTE

Ce qui est impalpable
mais
pèse

ce qui est sans visage
mais
blesse

ce qui est invisible
mais
ronge.     

ADIVINHA

O que é impalpável
mas
pesa

o que é sem rosto
mas
fere

o que é invisível
mas
dói.


NUIT

Voiler (oublier)
la face

enterrer (occulter)
la lumière

obscurcir l'
amour
dormir.

Attendre ce qui naît.

NOITE

Esconder (esquecer)
a face

soterrar (ocultar)
a luz

escurecer o
amor
dormir.

Aguardar o que nasce.


COQ

Que chante le coq et la
nuit
s'épaissit
en plein mi
nuit : noir est
le coq.

Coq abyssal - coq invisible
il chante
et tout se tait. Dans le
vide
seul - opaque - per
siste
le coq
noir.  

GALO

Canta o galo e a
noite
se aprofunda
em plena meia
noite: o galo
é negro.

Galo abissal-galo invisível
canta
e tudo o mais se cala. No
vazio
só - opaco - per
siste
o galo
negro. 


PRIÈRE

Notre-Dame
des orbes
et des orques

Notre-Dame
          de l'abîme
          et du sang

          Notre-Dame
          de l'angoisse
          et du cri

          Notre-Dame
          nocturne
          et éternelle

          — écoute-nous!

PRECE

Senhora
das feras
e esferas

Senhora
          do sangue
          e do abismo

          Senhora
          do grito
          e da angústia

          Senhora
          noturna
          e eterna

          — escuta-nos!


JEU

La tunique étant
unique
roulent les dés
sur le tapis vert.

La tunique étant
sans pareil
il faut
les dés.

Six faces blanches et les
chiffres qui décideront
de sa propriété :

un geste,, un
pari
et la décision sur le
vert
imprimée.

La tunique,
elle, demeure intacte.


JOGO

Como a túnica é uma
os dados rolam
no verde.

Como a túnica
é única
são necessários
os dados.

Seis faces brancas e os
signos que decidirão
a posse:

um movimento, um
risco
e a decisão no
verde
impressa.

A túnica
permanecerá intacta.


VOIR

Voir
l'envers
du soleil les
entrailles
du chaos les
os.

Voir. Se voir.
Ne rien dire.


                    VER

                    Ver
                    o avesso
                    do sol o
                    ventre
                    do caos os
                    ossos.

                    Ver. Ver-se.
                    Não dizer nada.

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