Thursday, 20 December 2012

De onde surgiu o mito do desaparecimento dos maias?

bbc news
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/12/121219_maias_mito_ac.shtml


De onde surgiu o mito do desaparecimento dos maias?

Atualizado em  20 de dezembro, 2012 - 08:09 (Brasília) 10:09 GMT
O indígena Juan Bautista (Foto: BBC)
Juan Bautista se surpreenderia se alguém lhe dissesse que milhões de pessoas pensam que sua etnia não existe
A teoria do desaparecimento dos maias é tema de livros, documentários e inúmeros debates. Mas há um pequeno problema: não é correta.
Os maias são a segunda principal etnia indígena do México, depois dos nahuas. Em Yucatán, Estado no sul do país, constituem 80% da população, e há comunidades em Belize, Guatemala, Honduras e El Salvador.
São indígenas como Juan Bautista, que trabalha há 51 de seus 63 anos em um pedaço de terra que pertence a sua família há várias gerações e onde criou quatro filhos e três filhas – todos nascidos com parteira – e lhes repassou seus conhecimentos sobre os ritmos da semeadura e da colheita.
Juan Bautista, que compreende o espanhol, mas prefere falar no idioma maia, se surpreenderia se alguém lhe dissesse que milhões de pessoas pensam que ele e sua etnia não existem.
O mito do desaparecimento dos maias é tão grande que quando o novo Museu Maia de Mérida – capital de Yucatán – fez uma pesquisa sobre esse grupo indígena, a pergunta que surgia vez por outra era "Por que desapareceram?".

O redescobrimento

O interesse pela civilização maia ganhou novo vigor nos últimos anos devido a algumas interpretações apocalípticas de dois de seus monumentos, nos quais se fala do fim de uma era no próximo dia 21 de dezembro.
E com o renovado interesse, ganhou força novamente a lenda de seu desaparecimento.
Uma parte fundamental desta lenda é que, quando os exploradores e conquistadores europeus chegaram à zona maia, encontraram muitos dos assentamentos e antigas cidades abandonados e em ruínas.
Isso criou a falsa visão de que o povo maia havia desaparecido sem deixar rastros.
No entanto, a ideia também parece emanar do momento em que a cultura maia foi "redescoberta" no século 19 por viajantes europeus como os ingleses Frederick Catherwood e John Loyd Stephens.
"Eles veem as maravilhas das cidades maias e se perguntam 'onde estão esses antigos habitantes?'. E pensam que desapareceram", diz Daniel Juárez Cossio, funcionário da Sala Maia do Museu Nacional de Antropologia do México.
"Na minha opinião, é uma falta de interesse em reconhecer as comunidades indígenas que são as herdeiras de toda essa tradição."

'Degenerados'

Mas não foram só os visitantes estrangeiros que não reconheceram a existência dos indígenas.
O arquiteto e museólogo José Enrique Ortiz Lanz – que projetou o museu de Mérida – lembra que o destacado intelectual mexicano do século 19 Justo Sierra O'Reilly dizia que não era possível que uns "degenerados" – como se referia aos maias de sua época – tivessem construído monumentos tão esplêndidos.
Talvez por trás do desprezo de Sierra O'Reilly também houvesse temor. Na época – 1847 – começava o que agora se conhece como a "guerra das castas", um levante de indígenas maias contra brancos e mestiços na península de Yucatán.
Neste mesmo ano, Sierra O'Reilly viajou aos EUA para pedir ajuda para controlar o levante armado, ajuda que não conseguiu. O conflito se prolongaria até 1901.

Um pouco de verdade

Mas o desaparecimento dos maias, como quase toda a lenda, tem um pouco de verdade.
Segundo Cristina Muñoz, socióloga que faz um trabalho de base com comunidades maias em Yucatán, "sem dúvida houve uma decadência de algumas zonas".
No entanto, o que lhe parece assombroso é que tenham conseguido controlar um território tão vasto – do sul do México ao território atual de El Salvador – quando não tinham o conceito de monarquia única.
"No momento da invasão (espanhola), havia 16 senhorios", diz Muñoz.
A desintegração política é chave, mas Daniel Juárez Cossio acredita que os motivos da decadência são múltiplos.

Os maias

Calcula-se que atualmente haja cerca de 6 milhões de descententes maias.
Eles habitam boa parte do que se conhece como Mesoamérica – o sul do México, Guatemala, Belize, Honduras e El Salvador.
Apenas no México, falam 30 idiomas diferentes.
Entre os descendentes maias conhecidos internacionalmente está a prêmio Nobel da Paz guatemalteca Rigoberta Menchú.
"Não há um só fator. Para explicar em termos atuais, a referência poderia ser a queda do Muro de Berlim. Isso significou, para o nosso mundo ocidental, o colapso de certas ideologias, mas aí estão os alemães, os russos, os americanos…Os sistemas políticos caem por questões econômicas, ambientais, etc."
E o tema ambiental parece ter sido chave nesse colapso da civilização maia.
"Fenômenos naturais como o El Niño não são exclusivos do nosso tempo, são conhecidos desde a antiguidade", diz.
"Por exemplo, vemos os estragos que o furacão Sandy provocou em Nova York, apesar de toda a tecnologia existente e formas de antecipar e mitigar os riscos. Imaginem um furacão dessas dimensões no mundo pré-hispânico."

Os Bálcãs maias

O especialista do Museu Nacional de Antropologia faz ainda outra comparação com o mundo atual: "Os maias eram um povo bélico. Vemos, por exemplo, a quantidade de emigração provocada pelos conflitos nos Bálcãs. Foi isso que ocorreu no mundo pré-hispânico, não são fenômenos novos nem diferentes".
Essa "balcanização" dos maias foi o que os espanhóis encontraram quando chegaram à região.
"(Na época) Há uma batalha entre (as cidades de) Chichen Itzá e Mayapan pelo poder econômico, pelas rotas comerciais… O que ocorre é uma queda desses sistemas políticos, e estavam buscando novas formas de organização social", diz.
"O que os espanhóis encontraram foram povos indígenas divididos, brigando pela hegemonia."
Entretanto, alheio à história e às dúvidas de milhões, Juan Bautista segue ensinando a seus filhos os segredos da terra no idioma maia.

Wednesday, 19 December 2012

A Fold In Space


from JIMMY - the peach
http://www.facebook.com/notes/jimmy-thepeach/a-fold-in-space/460820973955907?comment_id=5281445&notif_t=like

A Fold In Space
by Jimmy ThePeach 
on Tuesday, 18 December 2012 at 22:48 ·

After rhyme declined in 1899
people began to weigh their words.
Rather than timing the rhyming
literally, they found
sound has an affinity
for much larger harmonies.

A word’s weight is different than the
sound of the thing.

Some words echo when not said out loud
Some words rise like mist off the page
Some words cannot walk alone
Some words act differently
Some words find old souls
Some words can swim
Some words are for the future found
Some words were never here
Some words have music in them
Some words... without a sound
Some words cannot be taken back
Some words will never be forgiven
Some words are misunderstood
Some words fit perfectly
Some words are poetry
Some people believe
the new cannot be true.
Old ways are the only ways for them.

But, when things have changed like this,
there is no going back.
Not long ago the shortest distance
between two points
was a line.
Now the shortest distance
between two points
is a fold in space.



who gnu?

Monday, 17 December 2012

24 Intervenções Urbanas Criativas

creative
http://www.criatives.com.br/2012/10/24-intervencoes-urbanas-criativas/


24 Intervenções Urbanas Criativas




Artistas dos mais diversos lugares utilizam a sua arte para trazer um pouco de cor e criatividade à diversos pontos nas cidades. Um espaço que passa desapercebido para muita gente, se torna um meio de compartilhar a sua arte – seja um muro ou um hidrante. Estes artistas, muitas vezes, ficam no anonimato.
O post de hoje traz uma seleção de 24 intervenções urbanas para inspirar e colorir um pouco o seu dia.
Qual a sua favorita?

Músicos na visão de Yuko Shimizu

creative
http://www.criatives.com.br/2012/11/musicos-na-visao-de-yuko-shimizu/

Músicos na visão de Yuko Shimizu


A premiada ilustradora Yuko Shimizu, reuniu em uma série,  ilustrações baseadas em músicos famosos.  Entre eles estão: Elton Jonh, Bjork, Freddie Mercury, Keith Richards, Madonna e etc.
As ilustrações que foram feitas ao longo dos anos, tem todo um estilo próprio e ficaram muito bacanas. Veja:

Comentários

Sunday, 9 December 2012

NIEMEYER NO SONHO DE DARCY

josé ribamar freire
taqui pra ti
http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=1010



NIEMEYER NO SONHO DE DARCY
José Ribamar Bessa Freire
09/12/2012 - Diário do Amazonas

i
As imagens do enterro de Oscar Niemeyer (1907-2012), nesta sexta feira, me fizeram lembrar um sonho erótico, quase pornográfico, que teve Darcy Ribeiro com o arquiteto. Ele sonhou que o governo brasileiro nomeava a ambos para missão de alto nível na África: selecionar mulheres que queriam migrar para o Brasil. Milhões de belas candidatas negras faziam filas intermináveis que se estendiam por todo o litoral africano, de onde olhavam o Brasil. Como escolhê-las? Os dois examinadores inventaram um teste que era pimba na gorduchinha: o "teste do cheiro".
Mas antes de contar como foi aplicado o tal teste, convém contextualizar o sonho. Darcy passara por Manaus, em 1978, para ministrar um curso organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Avisei seu amigo, o poeta Thiago de Mello, que me perguntou
- Onde ele está hospedado?
- Acho que na Casa Jordão.
Era lá, nessa casa de retiro dos Salesianos, no bairro do Aleixo, que acontecia o curso e era lá que estavam alojados todos os participantes. Thiago quis saber se, entre eles, havia mulheres. Diante da resposta negativa, afirmou categoricamente:
- Então Darcy não fica lá. Ele jamais dorme em recinto onde só tem homem. Jamais! Tem que ter mulher debaixo do mesmo teto. Pode ser apenas uma única mulher, jovem ou velha, bonita ou feia, pode até ser freira e se alojar em quarto separado, mas sem sentir cheiro de mulher, no ar, ele não dorme. Não dorme! 
A Casa Jordão, com odor de santidade, estava ocupada exclusivamente por homens. Por isso, de lá se pirulitou Darcy, pecador confesso. Consegui localizá-lo bem longe dali, no Hotel Flamboyant, na Av. Eduardo Ribeiro, onde, enfim, se hospedara. Com Thiago, fomos lá convidá-lo para um show que o poeta dava no Teatro Amazonas em parceria com o cantor Sérgio Ricardo. Foi quando Darcy nos contou que estava esgotado, pois passara a noite toda labutando em árdua missão na África.
Cheio de mundo
Foi na África que pensei quando vi na tv imagens dos dois velórios: o de Brasília, na quinta-feira, e o do Rio, na sexta, porque em ambos havia filas com milhares de pessoas, autoridades, funcionários, estudantes e gente humilde do povo. Cadetes carregavam pela rampa do Palácio do Planalto "un cadáver lleno de mundo", como no poema de Vallejo. Os jornais entrevistam um pedreiro, uma doméstica, uma cobradora de ônibus, um eletricista, vindos de longe, endomingados, enfatiotados, que acenavam com lenços, alguns chorando na despedida ao construtor de Brasília.
No velório do Palácio da Cidade, no Rio, dois padres, um rabino e um pastor luterano oficiaram cerimônia ecumênica rezando pelo arquiteto que, embora ateu convicto, havia projetado igreja, mesquita, templos e casas de reza, com admiração e respeito por aqueles que têm fé e professam algum tipo de religião. "Niemeyer ajudou a entender o significado da passagem bíblica que diz: a fé remove montanhas" - falou o pastor Mozart Noronha  
É que Niemeyer acreditava, como comunista suprapolítico, na igualdade, na justiça e na solidariedade entre os homens. Lutou a vida toda por isso. E se o teólogo Leonardo Boff tiver razão, se Deus significa "entusiasmo" na derivação da palavra grega, então Niemeyer foi um ateu ébrio de Deus. No velório, até comunistas rezaram. A mulher de Luis Carlos Prestes estava lá, com uma bandeira vermelha, cantando o hino da Internacional Socialista.
- Niemeyer foi inabalavelmente comunista por mais de seis décadas - escreveu Jacob Gorender.
Na entrevista dada a um jornal, Maria Elisa Costa, filha de Lúcio Costa, conta que quando tinha três anos de idade, Niemeyer costumava brincar com ela toda vez que a encontrava dizendo: "Você é comunis..." E ela completava: "Tá".
- Eu muito me envergonharia se fosse um homem rico - declarou Niemeyer, que poderia ter acumulado bastante grana se a isso se dedicasse. Viveu sempre honestamente do seu trabalho. Deu-se o prazer de fazer vários projetos sem nada cobrar, como a Biblioteca Comunitária Tobias Barreto, na Vila da Penha, mantida pelo pedreiro Evando dos Santos ou a passarela projetada na comunidade da Rocinha, entre tantos outros. Chegou a doar um apartamento a Prestes. Depois do golpe militar de 64 foi interrogado num Inquérito Policial Militar (IPM) por um general, que queria saber como havia constituído seu razoável patrimônio.
- Dando o fiofó, general - teria respondido, irreverente, o arquiteto, que já era internacionalmente conhecido e requisitado no mundo todo por clientes públicos e privados. Uma resposta à altura da pergunta.
Poeta da Curva
Jornais internacionais deram amplo destaque à morte de Niemeyer. Desde o Granma, de Cuba, que exaltou sua "paixão pelos humildes", até o New York Times, que dedicou uma página inteira ao "poeta da curva",  responsável pela identidade do Brasil moderno, passando pelo Le Monde que o chamou de "arquiteto da sensualidade". Mas Niemeyer não estava nem aí, como havia já afirmado em entrevista:
- O sujeito que pensa que é importante, para mim, é um débil mental. O homem está num planeta pequenininho, no fim da galáxia, longe de tudo. Isso dá uma ideia da precariedade do ser humano, que é um fodido. Nasce, morre, como outro bicho qualquer, por isso mesmo deve ser mais modesto, ver a vida com paciência, sabendo que estamos no mesmo barco.
Resposta semelhante deu quando completou cem anos e um jornalista pediu que comentasse frase de Darcy Ribeiro para quem no ano 3.000 Caxias, Marechal Deodoro, Pelé, Gonçalves Dias - toda essa gente estaria esquecida e que o único brasileiro lembrado seria ele, Niemeyer.
- Quem garante que no ano 3.000 ainda existirá Brasil e brasileiros? Quem nos assegura que a espécie humana ainda existirá?
No Cemitério São João Batista, a Banda de Ipanema atacou "Cidade Maravilhosa" e "Carinhoso", de Pixinguinha, que - eu pensei - cairiam muito bem se tivesse tocado também na hora do "teste do cheiro", cuja aplicação prescindiu, infelizmente, de fundo musical. É que Darcy esquecera de convidar para o seu sonho os integrantes da Banda, que no enterro vestiam camisetas, onde estavam impressos desenhos com os traços inconfundíveis de Niemeyer e uma frase dele:
- De curvas é feito todo o universo.
Essas curvas que o mundo inteiro admirou. No bairro de Aparecida, em Manaus, nos anos 1960, atuava um "arquiteto descalço", autodidata, sem diploma, que sequer havia concluído o curso primário no Grupo Escolar Cônego Azevedo. Talentoso, grande desenhista, Edilson, filho da dona Pequenina, mais conhecido como Gaguinho, era contratado para desenhar e projetar as reformas das casas do bairro e adjacências. Foi aí que se apropriou das colunas do Alvorada, presentes em quase tudo que fazia. Era o Niemeyer chegando nos mais longínquos rincões da pátria. 
Uma das melhores sínteses do conjunto da obra de Oscar Niemeyer foi feita pelo jornalista Leonel Kaz, que trabalhou com Darcy Ribeiro:
- A arquitetura é o lugar para deixar a nuvem entrar, como no prédio do Ministério da Educação, é o lugar para o mar mergulhar na gente como das janelas do Museu de Arte Contemporânea de Niterói. A beleza dos traços do arquiteto era leve porque não eram os traços do homem, mas das curvas sinuosas de pedra, ondas do mar, pássaros e lagartos. Ele se apropriou, como homem, do que não era humano exatamente para nos tornar mais humanos.
Teste do cheiro  
O próprio Niemeyer, em declarações anteriores em que defendia as curvas, oferecera motivos para que ficasse conhecido entre os franceses como "o arquiteto da sensualidade":
- Não é a linha reta que me atrai, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual que encontro nas montanhas, no curso sinuoso dos rios, nas nuvens, no corpo da mulher bonita.
Mulheres bonitas, deslumbrantes, sensuais, cheias de curvas, calipígias, bundas empinadas, peitos ondulados era o que não faltava no sonho que Darcy nos havia contado, no qual Niemeyer foi protagonista. Elas queriam entrar no Brasil, mas tinham de passar por um grande portão na frente do qual estavam os dois futuros construtores do Sambódromo, que eram as sentinelas que detinham a chave para abri-lo.
Duas filas gigantescas de mulheres africanas, totalmente nuas, esperavam para entrar, mas só podiam fazê-lo se aprovadas no "teste do cheiro". As filas avançavam lentamente, primeiro eram examinadas por Darcy e, depois por Niemeyer, que passavam suavemente a mão no sexo de cada uma delas, alisavam, faziam carinho e, em seguida, cheiravam a própria mão, quando então avaliavam:
- Essa pode passar! A seguinte.
Foram milhões de mulheres. Darcy, com seu riso moleque, disse que nenhuma delas foi reprovada. Todas entraram no Brasil. É por isso que o nosso país é tão rico e diversificado. Alguns anos depois, Darcy iria construir com Niemeyer o sambódromo, templo da carnavália. O sonho havia sido tão real que ele, mostrando as mãos ao Thiago, jurava que estavam ainda impregnadas daquele perfume  afrodisíaco coletado in loco.
- O que conta não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar - dizia Oscar Niemeyer, já fora do sonho do Darcy, injetando esperanças na arquitetura deste Brasil que ele, mais do que ninguém, ajudou a construir, o que acirrou em todos nós o orgulho da brasilidade. O Brasil já é bonito por natureza. Niemeyer criou beleza nos espaços onde a mão do homem se intrometeu. Merece descansar em paz!
 P.S. - A foto é de autoria do cineasta amazonense Aurelio Michilles e foi tirada em Cunha (SP)


Friday, 7 December 2012

É PRECISO OUSAR MUDANÇAS

pátio - revista pedagógicaNovembro 2012Número 64, p. 18-21http://www.grupoa.com.br/site/revista-patio/artigo/7853/e-preciso-ousar-mudancas.aspx

É PRECISO OUSAR MUDANÇAS

Michèle Sato tem licenciatura em Biologia, mestrado em Filosofia, doutorado em Ciências e pós-doutorado em Educação. A diversidade em sua formação acadêmica tem contribuído para que ela lance um olhar aguçado sobre as questões ambientais, principal foco de seu trabalho.

Atualmente, é professora do Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e líder do Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte (GPEA). Também participa da comissão nacional da Plataforma de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (DHESCA) na relatoria de meio ambiente. “Partimos do pressuposto de que, toda vez em que há um crime ambiental, há também um crime social, e as agressões ambientais causam maiores impactos nas camadas mais pobres ou nos grupos sociais vulneráveis”, explica. “Para além de direitos humanos, é preciso considerar a destruição da vida não humana e todo o suporte da natureza. Assim, a escola precisa fazer emergir a importância dos Direitos Humanos e da Terra, debater a temática, rever sua função social, enxergar para além dos seus problemas intrínsecos e envolver-se nos dilemas da sociedade”, afirma.

Leia a entrevista concedida à Pátio Ensino Fundamental. 
Termos como “sustentável” e “sustentabilidade” são hoje repetidos à exaustão, embora muitas pessoas desconheçam seu real sentido e este acabe perdendo-se ou sendo interpretado de maneira equivocada e reducionista. Como a senhora define sustentabilidade?
O termo sustentabilidade parece ter sido banalizado não apenas porque é repetido à exaustão, mas porque é repetido por um grupo grande de pessoas das mais diversificadas áreas do conhecimento ou de atuação. Perdeu-se, assim, a identidade de quem está referendando o termo, já que se tornou um “jargão” pasteurizado em todas as áreas. Tecnicamente, a sustentabilidade é compreendida como algo durável que tenha a interface das três dimensões — economia, sociedade e ambiente —, mas acabou tornando-se um discurso vazio, porque as três dimensões estão apenas no nome, já que na prática muito pouco se concretiza. Pessoalmente, compreendo que a sustentabilidade deve incluir dois grandes destaques: a inclusão social e a proteção ecológica. A economia é subjacente a isso, assim como tantas outras essencialidades, como a educação, as ciências, a habitação, a espiritualidade e outras dimensões que chamamos de “qualidade de vida”.
 
Na maior parte das escolas, essa questão não fica muito clara. O que seria uma escola sustentável?
Uma escola sustentável almeja inclusão social com proteção ecológica. Alguns exemplos: um jogo de cores e luzes naturais no pátio da escola para que os surdos também possam cantar; uma exposição de cartuns ambientais em Braile para os deficientes visuais; rampas de madeira para os cadeirantes, em vez de concreto. E também uma bioarquitetura de aproveitamento das águas da chuva, conforto térmico, horta escolar ou trabalhos sobre a importância da alimentação livre de agrotóxicos. Trata-se de uma escola que sabe ouvir a comunidade e junto com ela elabora um projeto ambiental escolar comunitário, correspondente às identidades ali pulsantes: fenomenologicamente correspondente à realidade da escola, mas essencialmente estabelecendo um compromisso social e ambiental. Tem a organização de um currículo não mais hegemônico, e sim baseado no contexto de cada biorregião: educação indígena, quilombola, do campo e da cidade, entre tantas outras educações possíveis e dialogantes.
 
Há décadas se vem falando em ecologia, educação ambiental, sustentabilidade, mas percebe-se que os professores têm pouca informação. Além disso, tais questões ainda não são bem-trabalhadas no currículo das escolas. O que é necessário fazer para mudar esse quadro?
Há mais de mil anos falamos em matemática, geometria ou física, e não é verdade que tenhamos o sucesso dessas áreas nas escolas. A língua portuguesa, por exemplo, dispõe de uma enorme carga horária em relação às demais disciplinas, mas nem por isso as pessoas falam ou escrevem com gramática respeitável. A educação ambiental não é nenhuma ilha isolada em um continente educativo em crise sistêmica. Não é possível ser vencedor na educação ambiental se houver violência nas escolas e altos índices de evasão ou repetência. Existe um mosaico de tecido global na tessitura coletiva de pontos e nós, franjas e desenhos que conferem ligações entre pontos e linhas. Teremos de cuidar da escola — e basicamente da educação como um todo — se quisermos alcançar as mudanças desejadas. E, para isso, os pequenos pontos que a constituem devem trabalhar conjuntamente. Não há um ou outro culpado, nem uma ou outra área que seja bem-sucedida. O tecido educativo é o conjunto desses erros e acertos.
 
O que é preciso para que a escola seja formadora de cidadãos preocupados com a sustentabilidade do planeta?
 É preciso mudar a sociedade, ver a escola em seu âmbito, acreditar mais nos jovens, ousar mudanças, rever posturas, frear consumos, mudar estilos de vida, aprender a ser solidários. Estamos falando em mudar o modo como fomos criados, abandonar hábitos tradicionais, inovar e ser capazes de caminhar em outra concepção de mundo. Isso demora um pouco, por mais que os educadores ambientais tenham pressa em salvar o planeta cada vez mais ameaçado, mas a violência socioambiental existe justamente porque adotamos esses modelos insustentáveis de vida.
 
Muitas escolas abordam pontualmente a sustentabilidade e a educação ambiental, ou seja, com atividades sobre o Dia da Árvore, o Dia da Água, a coleta seletiva de lixo, mas a sustentabilidade não está inserida em seu projeto político-pedagógico. As ações pontuais são válidas?
As ações pontuais são interessantes, algumas vezes, porque despertam interesse pelo tema e fomentam algum debate, por mais irrisório que possa parecer. O Dia da Árvore (21 de setembro) deste ano foi celebrado com milhares de fotografias compartilhadas no Facebook. Parece ser uma atitude tola, mas foi interessante ver tantas páginas com árvores diversas. Contudo, não sendo um processo educativo, isso tem um papel pequeno frente à profundidade das mudanças necessárias no mundo. Nosso perfil imediatista e talvez pragmático aceita essas ações porque são visíveis e rápidas, porém a guinada conceitual de mudança socioambiental é lenta. Cumpre sempre destacar, todavia, que há um movimento em marcha, com vistas a construir projetos político-pedagógicos que saiam de meras datas e se enraízem em propostas pedagógicas mais processuais. No futuro, todo dia será o dia das mulheres, dos índios ou do Zumbi!
 
Haveria exemplos de escolas que desenvolvem um trabalho voltado à sustentabilidade?
Conheci muitas na Inglaterra, onde surgiu o termo “escolas sustentáveis”. Inúmeras escolas realizam não só a coleta seletiva de lixo, mas também exposições de desenhos e pinturas, enfatizando a bioarquitetura e a alimentação orgânica. Há belas experiências no Canadá, com a mitologia indígena. Os rituais são reproduzidos nas escolas e as hortas seguem uma lógica indígena, que garante o que eles chamam de land education, ou seja, uma educação mais próxima da terra. No Quênia, para não citar apenas os países ricos, conheci algumas escolas rurais que faziam plantações em rotação de culturas. Aproveitavam tudo e dispunham de enormes contêineres para captação de águas da chuva. Havia também uma espécie de tubulação que aproveitava o vento para girar moinhos usados na secagem das sementes para a merenda escolar. Pela condição socioeconômica, a bioarquitetura era escassa, e a ênfase estava na alimentação sem agrotóxico. Há outras boas iniciativas que não carregam essa nomenclatura em todo o mundo, mas são poucas, infelizmente, como é o caso brasileiro.
 
Existe alguma experiência em nosso país que mereça ser citada?
Há algumas vivências boas aqui e acolá. Ainda que sejam poucas, observa-se um movimento em percurso, acenando a emergência das mudanças necessárias. A proposta brasileira de escolas sustentáveis veio da inspiração inglesa, quando a coordenadora geral de educação ambiental do MEC, Rachel Trajber, esteve lá visitando escolas. Em Mato Grosso, a universidade federal (UFMT) e a secretaria de educação (SEDUC) aliaram-se, e já começamos o processo de formação de professores e jovens que se associam em coletivos (COM-VIDAS). Uma parceria com o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) está em planejamento, e pretendemos construir duas escolas maravilhosamente sustentáveis. Nosso objetivo será calcular a pegada ecológica do município de Cuiabá e iniciar um amplo processo educativo contra o consumo, uma vez superado o problema da fome — pegada ecológica é um indicador de qualidade de vida mais abrangente que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que pode mensurar também o consumo individual Ainda estamos engatinhando nessas propostas, mas tenho esperanças de que teremos belas vivências ecopedagógicas na escola e fora dela.
 
Recentemente, o Brasil sediou a Rio+20. Como a senhora avalia os resultados desse evento?
Um retrocesso de 20 anos, uma “Rio menos 20”. Uma triste constatação de que a economia triunfou nos debates ambientalistas, trazendo a vã ilusão de que a natureza só pode ser vista por seu poder “recursista” de uso e acúmulo do capital. Foi um momento vergonhoso de constatação de que muito pouco foi feito em prol do ambiente pelos governantes, e não apenas do Brasil, mas do mundo todo. Temos testemunhado uma derrota após a outra: Belo Monte, transposição do rio São Francisco, aprovação do Código Florestal e tantas outras mazelas que assolam a natureza e as pessoas mais pobres, vulneráveis ou invisibilizadas de nossa sociedade patológica. É preciso mudar esses cenários para que o cuidado socioambiental seja possível.
 
O que a senhora diria aos professores que se preocupam com o presente e o futuro do planeta e querem dar sua contribuição, mas não sabem o que fazer?
Eu diria que não existe uma receita pronta a ser seguida, mas sim tentativas para mudanças. Que a escola não está isolada e que o sistema em crise precisa ser repensado à luz de uma complexidade de pontos e linhas que formam o tecido educativo. Que as pequenas ações realizadas somam-se e ecoam diferentemente em cada região. Um projeto, uma aula ou um debate ambiental podem parecer pequenos frente às atrocidades do mundo, mas tudo isso se magnifica quando consideramos a escola como centro de um universo local, articulada com a sociedade e com as mudanças, em vez de apenas aguardar passivamente pelas mudanças que a sociedade nos impõe. Também diria que existem inúmeras publicações, materiais, estratégias educativas e roteiros que oferecem diversas possibilidades para que a escola seja um espaço mais atuante e progressista no tocante às dimensões ambientais.
 
As escolas, assim como as indústrias, poderiam ser envolvidas nas discussões sobre os créditos de carbono?
Penso que a economia verde está enganando certos professores, tentando fazer parecer que os serviços ecossistêmicos são a grande solução do século XXI. Um dos grandes desafios educativos para o tratamento da mudança climática é que as pessoas não percebem o fenômeno climático com nitidez. Isso as desmobiliza, e algumas chegam inclusive a duvidar que a escassez da água seja um problema mundial. Por isso, a pesquisa torna-se importante na escola para que conduza alunos e professores a descobrir novos mundos, e não meramente reproduzir discursos. Depois da Rio92, o Brasil pautou a economia nos modelos de desenvolvimento. Houve retrocessos tremendos, não apenas ambientais, mas também sociais. Entrar na pauta dos créditos de carbono é meramente continuar uma política desenvolvimentista que só destruiu o planeta. É preciso ir além da economia!

Créditos da imagem:
Foto: Luigi Teixeira de Sousa/divulgação
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