Friday, 16 December 2011

amar continua revolucionário

fonte - centro burnier
http://www.centroburnier.com.br/index_visualizar.php?cn_id=570

Amar continua revolucionário
Michèle Sato 

Há poucas pessoas no mundo que acreditam na mudança radical da sociedade humana. O momento é promissor ao projeto neoliberal que apregoa isolamento e competição, e qualquer tentativa de mudança parece estar fora das cartadas políticas ou pessoais. No final do ano, as expectativas ao novo ano geram promessas. Possivelmente um ano com “muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”.

Mas há movimentos neste mundo que reagem contra este personalismo, e de fato, a felicidade destes movimentos é “cuidar do outro”. Soaria como um projeto antiliberal, um movimento de resistência contra a noção desenvolvimentista,buscando consertar esta fissura entre pobres e ricos, dilacerando projetos individuais de dinheiro e saúde própria para um SUS da fraternidade, da gastronomia solidária e da esperança da maioria de nós e não somente da minoria. E nem apenas na ocasião natalina, mas perenemente.

Aqui em Mato Grosso, várias entidades, grupos e pessoas militam em diversos movimentos desta envergadura: com proposições nos cuidados dos povos indígenas, mulheres, migrantes, quilombolas, favelados, atingidos da copa e também das crianças e dos ecologistas. Tudo isso recebe o nome de Fórum de Direitos Humanos e da Terra (FDHT) e muita gente não percebe a relação do ambiente com a sociedade.

Partimos da premissa que todo ambiente deteriorado causa prejuízo às camadas economicamente desfavorecidas, e estas pessoas muitas vezes não têm como agir. Acreditamos que ao conversar com as pessoas pelo processo dialógico da educação Freireana, estamos ampliando as chances para que as pessoas sejam autônomas e capazes de tomar suas próprias decisões. Este movimento pedagógico está em todo lugar, na casa, nas escolas, nas ruas, nas comunidades e no mundo. O processo formativo crítico é essencial para que o elemento opressor seja claramente delineado, pois assim praticamos o ato de alvedrio ao resistir contra as forças hegemônicas que obstaculizam nossa liberdade. Por isso, vejo na educação ambiental a enorme contribuição que vem aliar cultura e natureza pelo processo educativo, e com essencial identidade num fórum que conclama pelos Direitos Humanos e também pela Terra.

Na rápida busca pelo Google, a aliança entre cultura e natureza é inédita no Brasil. Mato Grosso avança, assim, em sua criação mais do que oportuna, mas emergencial. E talvez pelas coisas belas da inclusão, recentemente lideramos um bonito manifesto de apoio à carta escrita pelos estudantes Kaiowá Guarani, de Mato Grosso do Sul.

Uma trajetória morosa de reconhecimento das terras indígenas deu o status de pior local de proteção indígena do Brasil. Fome e ameaças num local que parece não ter muita opção, exceto pela esperança. Tardia e talvez fugidia, de tempos em tempos a esperança parece desaparecer, mas absolutamente é ela que move esta gente a permanecer no mesmo local onde tantos já foram covardemente assassinados. Um pequeno dossiê dos Kaiowá encontra-se no blog do FDHT [http://direitoshumanosmt.blogspot.com/search/label/Guarani%20Kaiow%C3%A1], por informações obtidas pelos educadores ambientais do Brasil, pelos próprios indígenasde MS, pessoal do CIMI e a universidade Dom Bosco de MS, que possui um núcleo com especial atenção à causa indígena.

A mortedo cacique Nísio é uma ação brutal que ainda está sem solução, e toda carga social que envolve o enredo tem o endereço original: disputa pelas terras. Assim considero importante mapearmos os conflitos socioambientais em nossos estados brasileiros, identificando o que Paulo Freire chamaria de “opressores”. É na luta contra este agressor que o sujeito alcança a sua liberdade e deixa de ser oprimido.

Durante muito tempo, a educação ambiental era tida como solucionadora de problemas e promotora de condições ótimas de harmonia. Não raro, encontramos pomba branca voando nas capas de livros da educação ambiental, com mãos humanas envolvendo o planeta, no chamado antropocêntrico de que somos capazes de solucionar os dilemas ambientais pela paz.

Mas se assumimos que a educação ambiental se dinamiza na transcendência da ingenuidade, é bom destacar que ela é eminentemente política e conclama que haja mudanças radicais para à transformação desejada do mundo, contra as violências socioambientais. Isso posto, estamos admitindo que nem só de harmonia vive a educação ambiental, mas ela está nas esteiras de uma arena de lutas.

E por ser política, a educação ambiental conjuga o cuidado com o outro e com o ambiente, na indissociável dinâmica da cultura e da natureza no tempero da terra, o sal da terra, para que possamos lutar coletivamente para um planeta de todos e não da minoria. E assim celebrar as passagens de finais de ano com amigos, família e militantes do movimento que não abaixam suas cabeças, porque têm a certeza de que cuidar do outro é um ato de amor - e amar continua sendo revolucionário.


"A cada dia que vivo, 
mais me convenço de que o desperdício da vida 
está no amor que não damos, 
nas forças que não usamos, 
na prudência egoísta que nada arrisca e que, 
esquivando-nos do sofrimento, 
perdemos também a felicidade"

~ Carlos Drummond de Andrade

Michèle Sato é professora doutora da Universidade Federal de Mato Grosso, militante, ambientalista, e defensora dos Direitos Humanos


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