Monday, 19 September 2011

resistência civil


Resistência civil e dilemas da cultura
Pesquisa explora os conflitos na oposição intelectual ao regime militar

Márcio Ferrari
© ARQUIVO O GLOBO
Artistas durante manifestação contra a ditadura
O conceito de resistência cultural foi uma espécie de guarda-chuva comum da produção artística e cultural das oposições ao regime militar brasileiro. Abrigou uma série de matizes e composições cuja dinâmica ainda hoje demanda pesquisa e definições mais precisas. Depois de vários estudos sobre as articulações e paradoxos entre engajamento político e indústria cultural, sobretudo nos campos da música popular e da produção audiovisual, o historiador Marcos Napolitano, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), acaba de defender sua tese de livre-docência sobre as políticas culturais nascidas ou desenvolvidas no seio dessa cultura de oposição durante o período mais característico do ciclo autoritário.

A tese tem o título de Coração civil: arte, resistência e lutas culturais durante o regime militar brasileiro (1964-1968) e resultou de um projeto de pesquisa realizado com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A expressão “coração civil” já havia sido usada pelo autor em seus estudos sobre a MPB para aludir a um sentimento de oposição que permeava a produção cultural, hegemonicamente de esquerda, assim como sua fruição e valorização por uma classe média escolarizada. Os dilemas e contradições da cultura, principalmente das obras artísticas, expressavam “também os dilemas e contradições dessa mesma resistência civil”.

Em seu novo estudo, Napolitano analisa as políticas e ações culturais de quatro correntes da resistência cultural ao regime: comunistas (aí entendidos os intelectuais ligados ao Partido Comunista Brasileiro – PCB), católicos, liberais e movimentos contraculturais. O autor trabalhou como hipótese central com a percepção de que uma aliança estratégica entre liberais e comunistas produziu o conceito dominante de resistência cultural, que entrou em conflito com os movimentos ligados à Igreja Católica e as tendências contraculturais.

As duas últimas tendências, ainda que muito dessemelhantes em vários sentidos, tinham em comum uma postura radicalmente crítica em relação a alguns pilares da cultura tradicional de esquerda. Napolitano destaca, sobretudo, entre esses pilares, a participação do artista de oposição no grande mercado produtor de bens simbólicos, a estética realista apoiada numa “hierarquia cultural legitimada pelas instituições” e o “papel do intelectual como mediador central da cultura”. O primeiro ponto foi ilustrado, e já na época intensamente discutido, pela migração de dramaturgos ligados ao PCB (como Dias Gomes e Oduvaldo Vianna Filho) para a Rede Globo, no início dos anos 1970. E as duas outras instâncias de conflito diziam respeito à questão crucial de como falar em nome das classes populares e se isso era possível e legítimo. Napolitano sublinha que, nesse aspecto, as críticas formuladas pela esquerda católica e a contracultura eram bastante diferentes. Enquanto a primeira defendia “uma cultura basista, amadora e comunitária”, a última propunha “uma cultura sectária, experimental e transgressora”. Ambas procuravam se distanciar, ou pelo menos os questionar, dos espaços e instituições convencionais de produção e consumo cultural. Exemplos disso foram o teatro de periferia, o cinema marginal e certa feição do tropicalismo, que afrontavam o bom gosto e a arte conceitual, exercida fora dos circuitos de galerias e museus.

Napolitano vê seu estudo, em parte, como uma retomada de temas “bem estabelecidos pela historiografia da cultura brasileira”, mas com um importante elemento novo. “A grande lacuna, na minha opinião, é o tema das políticas culturais ligadas à nova esquerda, formada por socialistas democráticos, dissidências leninistas, movimentos sociais de base, esquerda católica, entre outros”, diz o historiador. “O que fiz no meu trabalho foi, basicamente, cotejar as análises já propostas com novas fontes e novas perspectivas, analisando sobretudo a visão e o papel da cultura para cada grande grupo ideológico da oposição ao regime.” Entre os intelectuais que se dedicaram ao estudo das lutas culturais entre comunistas e contracultura, Napolitano cita Roberto Schwarz, Heloisa Buarque de Hollanda e Celso Favaretto. O estudo dos liberais, aí entendidos “os grupos ligados aos empresários da cultura e da imprensa”, foi, lembra ele, mapeado por autores que analisaram a indústria cultural, como Renato Ortiz e Sergio Miceli.

Nos trabalhos que vem realizando desde pelo menos seu doutorado, com a tese Seguindo a canção: engajamento político e indústria cultural na trajetória da música popular brasileira – 1959/1969 (publicada em livro pela Annablume/FAPESP em 2001), Napolitano ressalta também a importância da obra Em busca do povo brasileiro (editora Record, 2000), do historiador Marcelo Ridenti, em explorar a relação entre cultura, ideologia e política. O livro estuda o imaginário de artistas e intelectuais de esquerda embasados nas classes médias, principalmente nos anos 1960. O autor caracteriza esse imaginário como perpassado por uma categoria superdimensionada do “povo”, sendo uma manifestação tardia do “romantismo revolucionário”. “Tratava-se de uma aposta nas possibilidades da revolução brasileira, que permitiria realizar as potencialidades de um povo e de uma nação”, diz Ridenti, professor da Unicamp e coordenador de Ciências Humanas e Sociais da FAPESP. “Recuperavam-se as representações da mistura do branco, do negro e do índio na constituição da brasilidade, tão caras, por exemplo, ao pensamento de Gilberto Freyre. Só que agora não mais no sentido de justificar a ordem social existente, mas de questioná-la. O Brasil não seria ainda o país da integração entre as raças, da harmonia e da felicidade do povo porque isso estaria interditado pelo poder do latifúndio, do imperialismo e, no limite, do capital.”

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