Saturday, 22 August 2009

COR DA ESPERANÇA


Se a esperança tivesse cor

eu pintaria o mundo

como o perfume da flor



agosto09

[retornando de Cabo Verde]
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CABO VERDE


Fotos do projeto “Identidades Partilhadas em Territórios de Comunidades Africanas e Brasileiras”, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq, PROAFRICA.

Cabo Verde, entre julho e agosto de 2009.
Ima, Lushi, Mimi, Mi e Ré
GPEA-UFMT

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AIDIL BORGES





Um agradecimento especial à AIDIL, que me narrou sobre a hospitalidade cabo-verdiana: “querer partir e ter que ficar / querer ficar e ter que partir”, no poético canto das identidades de “ilhas”, que ao se sentirem isolados, também se sentem abertos... Acolhem os que vêm de fora, porque o ato de abraçar é o acolhimento dos que ficam, e que também se abre ao braço que se move na partida.
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Thursday, 20 August 2009

SUJEITOS DE PESQUISA


Conforme promessa, a foto publicada no meu blog aos meus sujeitos de pesquisa em Cabo Verde. E os agradecimentos pela entrevista para: Anita Fernandes, Linete Patrícia Almeida Correa, Edna Alves e também Ivandro Lopes, Cândido Ribeiro, João Santos e um jovem que infelizmente escapou seu nome.

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No começo da conversa, entre caderno e caneta para minhas anotações, as narrativas eram deixadas bem claras por estes jovens: os mitos são invenções populares que merecem descrédito. Apenas um dos rapazes, João de Palmarejo, assumia acreditar nas histórias narradas. Entretanto, após alguns causos mal assombrados, todos contavam alguma história dando a conotação de que acreditavam no que narravam. “Meus pais contavam estas histórias e eu, pessoalmente já vi as bruxarias” [JOÃO].


Feitiçaria, bruxaria, macumbas e até mesmo vodus são atividades “do mal” bastante frequentes nas ilhas, especialmente aqueles que servem para seduzir os sexos opostos para enamorar. Gostam de quiromancia, horóscopo e alguns afirmavam consultar a internet para saber mais sobre o futuro. Perguntei-lhes se sabiam do nome do site, mas revelavam ainda um estranhamento tecnológico, e vibraram quando lhes contei que colocaria a fotografia deles na internet!


Uma noiva abandonada ao altar assombra as pessoas, de tempos em tempos, ainda tipicamente vestida como no dia em que foi desamparada pelo noivo. Nos mares, entre mares e além mares, parece que o amor é ainda o fenômeno presente que arrebata corações nos mitos e ritos de todo o mundo.


Para se curar deste males, há curandeiros que “guardam o corpo” por meio de ervas, “fechando-o” até contra punhaladas ou lâminas mais cortantes. Alguns conseguem fazer cirurgias espirituais, outros usam poderes extra-sensoriais para ler os sinais, como indicações para se encontrar pessoas desaparecidas, por ex. Outras narrativas se fizeram presentes, a maioria envolvendo feitiçarias e histórias fantásticas muito próximas à religiosidade cristã, como milagres e oferendas espirituais. Afirmaram ser todos cristãos, mas nem todos católicos, com a presença da Igreja de evangélicos, protestantes e batistas.


Foram unânimes em dar a forte recomendação de entrevistar os rabelados, que teriam mais histórias a contar. Perguntei-lhes se aprovavam o modo de vida dos rabelados e a resposta foi afirmativa. Era opções identidárias que se construíram e, para aqueles jovens ali comigo naquele instante, eram corajosos que teimavam em SER, para além de ter. Guardadas as proporções, Sartre talvez diria que no plano existencial daquela gente, a condição era resistir. E talvez eu possa mudar Fernando Pessoa, afirmando: “Resistir é preciso. Viver não é preciso”.


[mimi, em 29jul09, na biblioteca nacional de CV]

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OLHAR ALÉM MAR



Foto das pesquisadoras GPEA
Michelle Jaber, Regina Silva, Lúcia Kawahara e Imara Quadros
julho-agosto 2009
Cabo Verde - Forte da Cidade da Praia
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Da encosta brasileira um avião voava rumo à Europa, para depois rumar ao continente Africano, deixando já saudades de 5 pesquisadoras em Educação Ambiental. Excitamento, ao lado de esperas, talvez fosse a palavra que melhor soasse para as pessoas que pisariam o solo cabo-verdiano pela primeira vez em suas vidas. O que as esperavam? E, mais precisamente, o que elas esperavam? A aventura apenas começava, num risco branco que cortava o céu azul pelas asas de um avião...

De fila em fila, Portugal estava quente, talvez em consequência do aquecimento global. Resmungos, chiados, ruídos e talvez xingos eram ouvidos nas filas, naquele momento soando como intermináveis. Desbravando maus humores e instalando atmosfera amiga, o sobrevôo em mares longínquos, ainda que com o mesmo nome, Oceano Atlântico, nos mostrava as ilhas descritas na dissertação da Aidil, ou seja, algumas ilhas que formavam a Macaronésia, mitologicamente tratada como “Atlântida” por Platão.

Um hotel acolhia-nos, talvez num excitamento maior em conhecer Cabo Verde durante o dia, já que entre o pouso e a chegada no hotel mostrava-se noturno. Um delicioso jantar, na companhia da Aidil e seu marido Antônio, trouxe os primeiros temperos africanos de peixes conhecidos como o Atum ou Garoupa, mas também das mais novas opções gastronômicas de Bica e Serra. Um vinho da Ilha do Fogo [CHÃ das Caldeiras] me trazia Baudelaire na memória, entre a bebida dos amantes e a paixão daquela gente que construía um melhor país para eles. Inevitável pensamento bachelardiano me rondava a alma, fisicamente na presença dos 4 elementos, numa porção de terra embrulhada com água salgada, que ainda esnobava vulcões em plena era de mudança climática! Desfilaram vários assuntos, promessas e mais curiosidades sobre as tais ilhas, embalados pelos sonhos que não custaram a chegar pelo cansaço de uma longa viagem que cortava o Atlântico, entre seus dois continentes: africano e americano, representados por Cabo Verde e Brasil.

Ainda com a curiosidade na boca sedenta, dormimos Lúcia, Imara e eu num quarto, na vizinhança hoteleira de Michelle e Regina. Adoráveis companheiras, bem humoradas e sobremaneira, amigas. E quiçá a história de minha mãe tenha realmente razão, quando ela afirmava de que as verdadeiras amizades são construídas em viagens longas.

Mas naquele momento de cansaço extremo, meros 5 corpos buscavam conforto nas camas, talvez com sonhos, ou sem sonhos; com cores ou em imagens pretas e brancas; com beijos partidos da América ao beijo ainda não dado na África... Talvez confusões em filas, alucinações com animais grandes do “exótico” continente... Mas talvez nem tão extrínseco, mas intrínseca identidade de legados africanos que povoam intensamente nosso Brasil...

[mimi, jul09]
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CIDADE VELHA


Estava sentada num bar, na frente ao mar, enquanto as meninas [ima, lushi, mi e ré] saiam para suas entrevistas e pesquisas de campo. Um pouco distante, a casa de artesanatos e o ponto turístico, uma das maiores fontes econômicas de Cabo Verde. Cidade Velha foi fundada por volta de 1400 pelos portugueses e conserva alguma arquitetura medieval, além de outras histórias... que segundo o prefeito, Manuel Pina, há locais que se consegue ouvir as vozes da cidade...

Em Cidade Velha, Cabo Verde
ago09
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na geografia do atrito
américa - europa - áfrica
cabo verde provoca

o confronto da fricção
a calmaria da união

mar pedra
mão pedra
mulher pedra

pedras do brasil
brasil de pedras
== saudades...

[mimi]
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PEDRAS


Um trecho do diário de pesquisa, na Cidade Velha, local de nossa escolha para investigação, junto com Mata Cavalo [cerrado] e Joselândia [pantanal]. Entre áreas úmidas, frias e por vezes congelantes na miséria... Mas que também permitem florescer plantas pelas arestas, impondo vulcões do fogo e calor humano...

A foto foi tirada por 4 lindas pesquisadoras GPEA [na verdade não sei de qual álbum retirei a foto, mas a autoria pertence a uma delas]: Imara Quadros, Lúcia Kawahara, Michelle Jaber e Regina Silva.
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As ruas de paralelepípedos, mesclados com pedras de vários tamanhos, angulações, e formas, num tom acinzentado, mas como se vazasse o desejo por mais cores dos pigmentos da natureza e dos legados históricos de uma cultura lusófona. Um lugarejo, como diria Marisa Montes, carregando marcas indeléveis de uma identidade construída, hoje reconhecida como patrimônio cultural da humanidade e, que entre o contrato social de Russeau e o contato natural de Michel Serres, quiçá consigam realizar um contrato de matrimônio, casando a Terra com a justiça ambiental.
[mimi, ago09]
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FORTE SÃO FELIPE


Um trecho de meu diário de pesquisa, nas anotações de um caderno, entre letras tortas e desenhos mal traçados...

Cabo Verde, Cidade Velha
Forte São Felipe
ago09
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Com bruxas ou sem, compramos nossas proteções e de lá seguimos para Cidade Velha, no alto da montanha, que mantinha um forte construído pelos espanhóis dos impérios dos Felipes. E a Espanha de hoje ajudava a recuperar o local, com restauração da cisterna, quartos e presídios. Pela narrativa do Denilson, o guia turístico local, o forte nem tinha um presídio, mas diversas celas pequenas de tortura medieval, que acomodavam cerca de 10-12 homens em pé, sem teto, recebendo chuva e sol, entre seus próprios excrementos, terrores e possivelmente gritos. “Era um local que não se saia vivo” [DENILSON]. Curiosamente, tais celas localizavam-se logo na entrada do forte, no portal dos nobres. Talvez o espírito neoliberal das competições infundadas ali já era germinado.
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BATUCADEIRA


som de batuque
mexe a cadeira
sensual batucadeira


[mimi]
em cabo verde
agosto09
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MULHER CABO-VERDIANA


outra homenagem à mulher cabo vediana
agosto09



no requebro da onda
ginga a mulata
na graça do corpo

[mimi]
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MULHER CABO VERDIANA


Para todas mulheres que trabalham com garra
na graça e na ginga feminina!

Cabo Verde, ago09
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corpos
mosaicos
perfumes

no trabalho do transporte
na labuta da cestaria
no caminho das mulheres

cestos
na cabeça

panos
na cintura

esperanças
na alma

[mimi]
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